Domingo, Novembro 15, 2009

Capítulo 22: Sonho

O - P E R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 21: Número 25)

"Finalmente vi o quarto de Andy. Assim como o de Christopher, era de cores claras mas não tão frio. Ele tinha uma fotografia do Big Ben a preto e branco numa parede e a outra estava pintada de creme. Notava-se que era um quarto desabitado. Sabia que Andy não passava muito tempo lá."

Sonho

Tinham passados apenas dois dias desde que me tinha mudado para casa dos McKevin. A minha mãe tinha-me telefonado mais de quatro vezes só no primeiro dia. Obrigou-me a descrever a casa; a sua decoração, como era a vizinhança, como era o pai de Christopher. Receei a factura telefónica no fim do mês. Parecia que estava mais entusiasmada que eu. Algo um pouco difícil uma vez que estava apaixonada pela casa.
Richard era um homem encantador. Apesar de um tanto reservado, era alegre e sempre bem-disposto. Á noite Martha fez-me o jantar. Senti-me ridícula ao jantar numa casa onde ninguém come. Mas a sua comida estava tão saborosa que esqueci tal facto. A companhia dos três durante o jantar foi bastante agradável. Richard tinha muitas histórias fantásticas sobre a sua vida, e de vez em quando apanhava-me desprevenida quando afirmava ter conhecido alguém famoso.
Andy tinha chegado no meu segundo dia em casa. Prometera-me que a minha avó estava bem e segura e que confiava plenamente nos vampiros que ficaram em Kingston. Fiquei mais calma e agradeci-lhe todo o trabalho que tinha tido, mas ele apenas sorriu-me e passou a sua mão pelos meus cabelos.
O serão era sempre a altura de mais tensão. As histórias de vampiros e Lobisomens que eles me contavam eram dignas de um filme que arrebentasse com as bilheteiras. Nunca me passara pela cabeça estar a discutir a anatomia de um Lobisomem. Principalmente com vampiros.
Após dois dias, sentia-me como se já lá vivesse desde pequena. Apesar de a minha casa e Kingston serem o meu cantinho, tinha encontrado ali um conforto novo. Algo entre o entusiasmo e a felicidade. Algo que não senti desde a morte do meu avô.
- Amanhã começa o treino. – Disse Christopher enquanto estávamos sentados na sala de estar. Andy estava a ver um programa na televisão enquanto Martha lia atentamente um livro numa língua estranha. Richard estava ausente, talvez para o andar de cima, de volta das suas células humanas.
- Treino?! – Perguntei engasgando-me nas minhas palavras. Andy riu-se sem retirar os olhos da televisão e Martha tapou a cara com o seu livro. Christopher sorriu-me e sentou-se ao meu lado no sofá. – Qual treino?
- Julgas que te vamos deixar incapacitada de te defenderes quando há um Lobisomem há solta que te pretende destrui?
Dito daquela maneira parecia uma sinopse de um filme de acção com terror à mistura mas o efeito fez-me arrepiar de tal maneira que quase parecia varas verdes. Christopher puxou-me para si de maneira a ficar com a cabeça encostada ao seu peito. Esperava ouvir o seu coração bater mesmo sabendo que ele era um vampiro. Mas o vazio não me assustou. Até foi reconfortante.
- Quem me vai treinar? – Perguntei ouvindo as minhas palavras ecoarem no peito vazio de Christopher.
- Eu! – Respondeu Andy finalmente olhando para mim. Parecia divertido. – Vou-te ensinar as bases e os truques. Martha ensinar-te-á a manuseares uma arma…
- Uma arma?! – Perguntei endireitando-me e olhando fixamente para a capa do livro de Martha. Ela olhou-me por cima do mesmo com um sorriso tímido. – Que arma?
- Não uma arma, várias até. – Respondeu ela calmamente pousando o livro em cima da mesa de centro. Não retirei os olhos dela. – Tens que estar preparada para qualquer eventualidade.
- Mesmo assim, que armas?
- Depois vês. Não te comeces a assustar, por favor. – Pediu Martha com um sorriso enviesado que prometia que me ia assustar assim que visse as armas. – Vais ficar bem.
Acenei com a cabeça, sentindo a garganta seca. Voltei a encostar-me a Christopher começando a imaginar que treino poderia ter com eles e as armas que Martha me falara. Apenas uma arma me veio à mente mas rapidamente a esqueci pois Boris tinha-a destruído nos anos 30. Christopher tinha-me dito que era a única arma capaz de matar Boris por isso não entendia a utilidade de aprender a utilizar uma arma se nada era eficiente.
Esqueci o assunto. Assim que começasse a treinar daria mais importância a isso e perguntaria tudo o que queria. Agora queria apenas me concentrar no presente. No facto de estar ali com eles, com Andy a ver uma telenovela lamechas na televisão, com Martha a ler o seu livro estrangeiro e com Christopher, que me abraçava docemente dum modo protector. Perguntava-me o que tinham os seus irmãos pensado quando nos viram assim, abraçados um ao outro que nem adolescentes apaixonados. Ou Richard, que teria ele dito a Christopher sobre isso.
Rapidamente prendi o olhar à mesma telenovela que Andy parecia estar a ver. Não conseguia perceber se ele estava realmente a segui-la se tinha deixado a televisão ligada como companhia. Mas a verdade é que o choro das personagens puxou-me o interesse e comecei a vê-la. Os amores impossíveis daquele guião pareciam tão forçados agora que estava numa casa cheia de vampiros. Parecia que aquilo era apenas um mau elenco a despejar as suas falas. Aquelas pessoas não pareciam perceber que a vida era mais cruel que aquilo.
As minhas pálpebras ficaram pesadas. Mantive-as abertas, forçando para estar ali com eles. Mas o sono era mais forte que eu e rapidamente adormeci, mesmo não querendo. Apenas sentia-me a flutuar ouvindo os sons do exterior. Agora não sabia se estava a sonhar se estava a ouvir mesmo vozes.
Soube que estava a dormir assim que vi a minha casa de Kingston. Parecia igual, sempre a mesma porém diferente. Escura, sombria, algo estava errado. Avancei pelo alpendre espreitando pela janela. Não conseguia ver nada. Limpei o vidro esperando que a humidade fosse a razão. Mas para minha surpresa, continuei a não ver nada.
Abri a porta lentamente, ouvindo-a chiar. Parecia que a casa criava eco.
- Avó?! – Chamei quando todas as portas das divisões estavam fechadas. Ouvi somente a minha voz a ecoar. Algo estava, decididamente, errado.
Os meus passos faziam a madeira do chão ranger como se estivessem a queixar-se do meu peso. Mesmo andando devagar e cuidadosamente, não conseguia fazer com que as placas não fizessem barulho. De cada passo que dava era pior.
Abri a porta da sala. Não me importei com o barulho desta pois já tinha feito barulho suficiente. Porém, abafei um grito quando notei que a sala estava despida, sem móveis, sem quadros, nada. Completamente despida. Era uma casa assombrada. Apenas o pó do tempo era visível.
Recuei um passo com a boca ainda tapada do susto. Porém, embati em qualquer coisa e petrifiquei. Não estava nada ali quando entrei, o que significava que alguma coisa ou alguém tinha entrado atrás de mim, silenciosamente.
Rodei lentamente nos calcanhares, preparando-me para correr ou gritar.
A minha reacção foi bem diferente do que esperava. Não gritei nem corri, apenas pulei com o coração a pular e comecei a soluçar.
Era o meu avô. Ele estava ali, a olhar para mim com o meu sorriso favorito. O sorriso de traquina dele. Porém, ele estava pálido, bem mais branco que uma estátua. Os seus olhos não tinham o sorriso que os seus lábios demonstravam, estavam sérios, alarmantes, preocupados.
- Avô?! – Chamei deixando as lágrimas correrem. Levantei uma mão hesitante, tentando alcançar a face do meu avô. Os meus dedos tremiam tanto que temi não conseguir tocar em nada.
Finalmente, toquei na sua face gelada. O seu sorriso desapareceu assim que ele me sentiu, dando lugar a uma cara triste, quase de desculpa. Não quis saber de mais nada. Apenas me atirei ao seu pescoço, abraçando-o fortemente e chorando como uma criança. Solucei e solucei, apertando cada vez mais o meu avô contra mim. Ele retribuiu o abraço mas não tão forte como eu. Apenas o suficiente para eu o sentir.
- Phoebe Anne. – Disse ele num sussurro rouco. Tremi mas voltei a aperta-lo. Não queria sair dali. Ele estava abraçar-me, algo que sentira falta. Ele estava a chamar-me. A mim.
- Tenho tantas saudades tuas avô. – Disse entre os soluços, quase sendo difícil perceber as minhas palavras. Sorri quando ele apertou-me um pouco. – Tantas!
- Phoebe. – Voltou ele a chamar. A sua mão subiu para me afagar os cabelos. Ele estava tão gelado como Christopher normalmente está. Como uma estátua em plena neve.
Recuei um pouco, não o largando com medo que ele desaparecesse. Os seus olhos continuavam sérios. Limpei as minhas lágrimas rapidamente com uma mão, mantendo a outra entrelaçada nos seus dedos. O seu toque continuava o mesmo. Suave.
- Phoebs. – Ele tocou-me na face, acariciando o rasto das minhas lágrimas. Soltei um soluço mas consegui conter as lágrimas que queriam sair. – A minha menina. Não queria que sofresses.
- Não avô! Eu não estou a sofrer. – A minha voz desmascarou-me pois falhou enquanto novas lágrimas caiam. – Estou feliz por estares aqui.
- Não! – Disse ele sem olhar para mim. – Estás a sofrer. Estás a sofrer por minha causa e isso magoa-me.
- Não…
- Deixa-me falar. – Cortou ele levantando um dedo. – Desculpa nunca te ter contado nada. Desculpa ter-te deixado este fardo. Devia ter sido sincero contigo e ter-te dito tudo. Assim, agora estavas preparada. Não consigo aguentar!
- Avô… - Chamei tentando olha-lo. Parecia que ele tentava chorar mas não conseguia. – Não te culpes. Eu não te culpo. Não podias dizer-me.
- Se ao menos…
Voltei a abraça-lo, demonstrando-lhe que não estava chateada com ele. Que aquilo pelo que estava a passar não era culpa dele. Eu também tinha escolhido estar com os McKevin e enfrentar o que estava para vir. Podia ter ignorado e esquecer o assunto, deixando o luto consumir-me. Mas estava lutar por algo que ele, outrora, acreditara. Que eu acreditava, aos poucos.
Senti como se algo me puxasse pela cintura para me afastar dele. Agarrei-me fortemente, sabendo que não o magoava. Não queria sair dali, não queria deixar de sentir, de o ver.
- Não! – Gritei contra a força invisível. Pareciam várias mãos a puxar-me, urgentemente. – Não vou voltar. Quero ficar.
Os braços do meu avô apertaram uma vez contra ele. Como que a despedir-se. Não queria despedir-me. Não estava preparada. Ainda não. Nunca estivera.
Lutei contra a força, agarrando-me ao meu avô, olhando-o nos olhos enquanto ele se despedia silenciosamente. Recomeçara a chorar freneticamente, gritando, chamando-o. Mas eu era fraca demais para a força e rapidamente o larguei, tentando, ainda, alcança-lo com as minhas mãos enquanto o chamava. Ele esticou uma mão, tocando-me na face, hesitando. Vi uma lágrima cair-lhe pelo rosto e queria ser eu a limpa-la, a conforta-lo. Mas não conseguia. Estava presa numa teia de mãos invisíveis com as quais não conseguia batalhar.
- Não! Avô… avô. – Gritava com a garganta a doer-me.
Era puxada pela sala vazia, vendo a porta a ficar cada vez mais pequena à medida que desaparecia na escuridão. Pareceu-me ter ouvido alguém a chamar-me mas ignorei. Queria-o a ele, ao meu avô. Nada mais interessava. Ele começava a parecer-se mais como uma estátua. Ele estava a olhar para cima? Era impressão minha ou uma luz começava a invadi-lo como se ele fosse um anjo?
Acordei sobressaltada, gritando e ainda a combater as mãos invisíveis. Estava no meu quarto no número 45. Não havia avô nenhum ali a não ser na minha mente.
Christopher e Martha estavam ao meu lado, olhando-me preocupadamente.
- Phoebe? O que foi? – Perguntou Martha com um copo de água na mão.
Christopher fez-me olhar para ele. Ele estava em volta de uma nuvem. Notei que chorava compulsivamente. Ele e a irmã abraçaram-me docemente, baloiçando-me para a frente e para trás enquanto me tentavam acalmar.
Senti os meus dedos doerem e apercebi-me que agarrava com bastante força a camisa de Christopher. Mas não conseguia parar de chorar. Não conseguia parar de sentir o meu avô abraçado a mim. A sua voz ainda ecoava na minha mente. Não queria apagar aquilo mas o sonho começava a querer desvanecer-se. Voltei a apertar a camisa de Christopher, como se, ao fazer tal, o sonho se mantivesse na minha mente.
- O que aconteceu Phoebe? – Perguntou Martha ajudando-me a beber a água.
- O meu avô. – Consegui dizer enquanto ainda soluçava. – Eu vi-o.
As lágrimas voltaram a cair-me mas eu afugentei-as bruscamente e olhei para a colcha elegante, tentando não chorar. Era difícil.
Não sei como é que eles tinham paciência para me deixarem chorar encostada a eles, mas Martha e Christopher tinham permanecido junto de mim durante toda a noite. Murmuravam palavras doces e acariciavam o meu cabelo quando soluçava. Consegui ver o dia a iluminar-me o quarto antes de me sentir cansada e voltar a colocar a cabeça na almofada. Mesmo assim senti a presença deles ali, a escassos centímetros de mim. Christopher tinha ficado sentado na cadeira à minha cabeceira e Martha deitada ao meu lado, de maneira abraçar-me quando necessitasse.
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Próximo Capítulo:
Treino e Café

Capítulo 21: Número 45

O - P E R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 20: Almoço Com Os Pais)

"A mão de Christopher subiu ainda com a minha na dele para me acariciar a cara. Ele forçou um sorriso encorajador, mas sabia que por detrás daquele sorriso estava um medo enorme. Sabia que, se ele pudesse, íamos para longe onde a palavra Lobisomem fosse desconhecida e onde estaríamos todos em segurança. Mas Boris não era parvo. Pelo menos daquilo que eu aos poucos ia aprendendo dele. Seguir-me-ia até ao fim do mundo, mesmo se fosse para um planeta a milhões de anos de luz. Ele nunca me iria deixar ir, sendo a última Evan-Jones."

Número 45

A minha última mala foi colocada na bagageira do meu carro. A minha mãe ainda tinha um saco na mão que sabia ser coisas essenciais ao meu bem-estar. Outras coisas um pouco supérfluas como uma plantinha para me lembrar dela e uma moldura com a nossa foto.
- Mãe, vou só para uma ponta da cidade. Não vou para a América onde temos um oceano pela frente. – Disse dando-lhe o último abraço antes de me virar para o meu pai.
- Não. Temos um oceano de pessoas e de casas. É diferente.
O meu pai abraçou-me fortemente, dando-me palmadinhas leves nas costas. Vi Christopher a sorrir encostado ao carro. Ele ia a conduzir uma vez que não sabia onde ele morava.
- Não te esqueças de…
- Telefonar se precisar de alguma coisa. – Continuei numa voz monocórdica. – Já sei, já sei. Já repetiram isso umas cinco mil vezes desde que descemos.
Uma despedida calorosa, daquelas que sugere que vou mudar de pais quando na realidade estarei mais perto do que eles julgam. Apenas cinco linhas do metro e três autocarros e estou ali. Ainda ia demorar um tempo a habituar-me a um novo trajecto de carro.
Dei um abraço rápido de novo à minha mãe, dei-lhe um beijo na testa, fazendo o mesmo ao meu pai e acenei-lhe antes de entrar para o lugar do pendura. Mal me sentei, era como se uma bolha me protegesse. Deixara de os ouvir a avisarem disto e daquilo. Apenas tinha um objectivo que era sair dali e ir conhecer a casa onde iria morar por tempo ainda desconhecido.
Vi Christopher despedir-se dos meus pais pelo espelho retrovisor e encaminhar-se para o carro. Ele sorriu-me, vendo os meus olhos a segui-lo e entrou calmamente no carro. Demorou o seu tempo a ajeitar o banco e os espelhos antes de ligar o carro e ligar o rádio. Estava a começar a ficar nervosa.
- Importaste?! – Perguntei a tremer a perna. Ele olhou-me confuso. – Vê-los ali a despedirem-se de mim estava-me a deixar nervosa.
Ele deu uma pequena gargalha e ligou o carro, começando a fazer as manobras necessárias para sairmos do meu lugar. Voltamos a acenar aos meus pais que permaneciam no mesmo sítio, e saímos da garagem.
Suspirei de alívio e senti-me menos pesada.
- Finalmente. – Disse encostando a cabeça no banco e sorrindo alegremente.
- Querias mesmo sair de casa. – Comentou Christopher num tom jocoso.
- Não era o querer sair por querer sair. – Tentei explicar sentindo um pouco confusa com a minha explicação. – Queria sair porque precisava. Não porque queria estar longe deles, nada disso. Mas porque senti que necessito estar longe deles.
Calei-me subitamente percebendo que as minhas palavras pouco ou tanto sentido fizeram. Fixei o meu olhar no carro da frente enquanto paramos num sinal vermelho.
- Estou a fazer algum sentido?
- Algum!
Christopher sorriu para si e acelerou um pouco numa rua deserta. Já estava preparada para qualquer ataque súbito por sua parte. Cinto colocado e mãos apertarem o banco com tanta força que era capaz de o partir. Desta vez não me apanharia desprevenida.
- Quando é que me levas a voar? – Perguntei subitamente quando vi um avião no céu. Lembrei-me da sua conversa quando vinha-mos a caminho de Londres sobre os seus poderes.
- Queres voar? – Perguntou ele levantando um sobrolho e olhando-me de relance. Acenei com a cabeça. – Porquê que queres voar?
- Nunca voei! Quer dizer, tecnicamente já voei. – Disse encolhendo os ombros. – Queria saber como é que vocês voam.
- Não é muito confortável para o “passageiro”. – Comentou ele, fazendo as aspas com uma mão e sorrindo alegremente.
- Como é que sabes?
- Apenas sei.
- Já levaste alguém a voar. – Afirmei sentindo uma pontada de ciúme. O porquê, não sabia.
- Não! Porque apenas sei. – Confirmou ele, dizendo cada palavra devagar, olhando fixamente para a estrada.
- Ok. Eu acredito em ti. – Desisti, voltando a suspirar e olhando pela janela. Aquele sítio conhecia eu bem.
- Depois levo-te a voar. – Disse ele passado poucos segundos, sorrindo de uma maneira diferente. De maneira trocista.
Andamos pela cidade, vendo sítios que conhecia apenas de nome e outros que conhecia bem. Estava a tentar memorizar o caminho mas os atalhos de Christopher acabam por me baralhar. Apesar de tudo sabia que já estávamos um pouco longe da minha casa. E os nervos começavam a surgir com força. Um aperto no estômago, o mesmo que sentia quando pensava nos McKevin antes de saber a verdade sobe eles. O mesmo aperto quando pensava em todos os momentos que passara com Christopher. O famoso formigueiro do medo miudinho que crescia em nós que pensamos se as coisas vão correr bem.
- Não estejas nervosa. – Comentou Christopher docemente. – Richard não morde.
A piada demorou algum tempo até chegar ao meu cérebro. Só então é que percebi o seu significado e estremeci. Porém, o riso alegre e divertido de Christopher era contagioso, e não consegui deixar de esboçar um sorriso que depois se transformou em riso.
Não sei quanto tempo andamos mas também não me importar. Apenas deixava-me levar por Christopher e via as vistas das ruas cheias de gente. Era como se tivesse acordado de um sonho e estava de novo na realidade. Tinha sentido falta daquela confusão típica da cidade. Kingston podia ser o meu sítio favorito com a sua calma e natureza, mas eu pertencia a uma cidade gigante e confusa, e já tinha dado falta das buzinas dos condutores impacientes.
Viramos numa esquina e chegámos a um largo onde nunca tinha estado antes. Era um largo como aqueles que se vêm nos filmes antigos. As casas eram iguais e bastante patriotas uma vez que tinham a bandeira de Inglaterra penduradas. Eram casas brancas com janelas negras e portões elegantemente adornados com escadas de acesso à porta de entrada. Todas elas tinham três andares. Era uma rua larga e enorme, e devemos ter passado por, pelo menos, dez casas até pararmos à frente de uma delas. A casa era o número 45.
Christopher parou à frente da casa, saindo do carro e apressando-se a ajudar-me com as coisas. Porém os meus olhos estavam fixos naquela maravilhosa imagem retirada dos quadros do século XIX.
“Eu vou morar aqui? Devo estar a sonhar!”
A porta abriu-se subitamente e um vulto saiu a correr. Só me apercebi de quem se tratava quando os seus braços quase me sufocaram.
- Phoebe! – Disse Martha ao meu ouvido, extremamente feliz por me ver.
Retribui o abraço e deixa-a dar-me um beijo na face. Os seus lábios ainda eram mais gelados em comparação aos de Christopher. Mas igualmente suaves e macios.
- Estou mesmo feliz que tenhas decidido vir morar connosco. – Disse ela agarrando nas minhas mãos e puxando-me pelos degraus, em direcção ao interior da casa. Olhei para Christopher, vendo-o com as minhas malas na mão e sorrindo-me alegremente. Queria-o ajudar mas Martha tinha-me como sua prisioneira. Deixei-me seguir.
Christopher tinha razão quando dizia que ia gostar da casa. Adorava a casa dos McKevin em Kingston, mas a casa deles em Londres era algo completamente único. Uma típica casa do século XIX sem aquela confusão de eras e estilos. Tudo naquela casa era de á dois séculos.
Martha ajudou-me a tirar o casaco enquanto observava o maravilhoso hall de entrada de madeira de boca aberta. Ela colocou-o dentro de um armário alto e trabalho cujos desenhos representavam várias cenas da bíblia.
- Vamos, entra! – Disse ela e seguia por um pequeno corredor de madeira onde as paredes estavam revestidas com um tecido de veludo verde e dourado. Passei a mão pelo veludo, sentido este passar pelos dedos.
Ela abriu uma porta e entramos numa sala enorme. Num canto estava um piano de cauda, algo que sempre adorei. Ao lado do piano estava um violino. Apaixonei-me imediatamente por este. Era preto como eu tanto gostava. Do outro lado uma lareira estava acesa e à sua frente estava um homem de cabelos brancos e de olhos negros a observar-me com um enorme sorriso.
- Richard! – Saudou Christopher com uma espécie de vénia.
- Bem-vinda! – Disse Richard numa voz quente como se fosse um cantor de ópera clássica. Ele afastou-se da lareira e olhou-me com um sorriso de orelha a orelha. Subitamente senti-me parte da família mesmo sem o conhecer.
- Muito prazer em conhece-lo Mr. Anderson. – Disse estendendo a mão e feliz por a minha voz ser educada e não tremer. Não sabia como cumprimentar um vampiro da idade dele.
- Chama-me Richard por favor. – Ele abriu os braços e abraçou-me. O seu abraço era quente mas supus que tal se devia à roupa que usava e ao facto de ter estado junto da lareira. Ele olhou-me de cima a baixo como se estivesse a observar a filha que não via há meses e olhou para Christopher. – Andy tinha razão!
Olhei para Christopher e vi-o a sorrir.
O que é que Andy tinha dito a Richard sobre mim que me fazia corar tanto?
Richard afastou-se de mim e foi até um armário. Bateu-lhe com uma mão e este rodou até se transformar um bar com vários tipos de whisky e outras bebidas.
- Bebes alguma coisa? – Perguntou-me apontando para as bebidas.
- Aceito um copo de água, por favor. – Disse corando e vi-o olhar para Martha e voltar a bater no móvel. Este voltou a rodar e ficou de novo como um simples armário de sala de estar. Martha chegou perto de mim e esticou-me o copo. Agradeci com um olhar e bebi um gole. Estava fresca.
- Senta-te. Finge que estás em tua casa uma vez que vai ser tua por algum tempo – Disse Richard apontando para o sofá e sentando-se num cadeirão.
Christopher sentou-se ao meu lado enquanto Martha ocupava o seu lugar noutro cadeirão. Olhei em redor.
- Tem uma casa linda! – Comentei observando cada quadro e cada móvel.
- Obrigado! Ainda bem que gostaste! Andy disse-me que gostavas de coisas antigas. – Respondeu Richard e voltei a corar. Andy e Martha já deviam ter contado tudo sobre mim a Richard. – Imagino que tenhas gostado da casa em Kingston.
- Adorei. – Disse sorrindo-lhe abertamente.
- Tenho esta casa desde o século XVIII. Quando entramos no século XIX mudámos a decoração para ficarmos com a casa típica do século e desde então que tem estado assim. Estes móveis já têm 200 anos. – Disse Richard enquanto fazia um gesto com a mão apontando para a sala toda.
- É realmente maravilhosa. – Disse quase engasgando-me nas palavras quando ouvi a data dos móveis. Richard sorriu e olhou-me docemente.
- Mas depreendo que queiras ver o resto da casa antes de passarmos a assuntos mais importantes. – Disse Richard seriamente. – Christopher, importas-te de mostrar a casa?
- Claro!
Christopher levantou-se e ajudou-me a levantar. Pegou-me na mão e saímos da sala. Voltei a ficar maravilhada com o corredor que ia até ao hall.
- O teu pai é muito simpático. – Comentei enquanto subíamos as escadas e observava os quadros expostos. Christopher sorriu-me e encaminhou-me por um outro corredor até uma das portas ao fundo.
- Aqui é onde vais ficar. – Disse-me enquanto abria cuidadosamente a porta.
O quarto tinha cores simples com uma grande cama dossel que ocupava o seu interior. Havia uma escrivaninha e um armário enorme completamente trabalhado, encostados a uma das paredes. Havia um cadeirão forrado com o mesmo tecido da colcha da cama no seu tom branco com alguns adornos em tons de pastel. Os cortinados brancos tapavam uma vista linda sobre Londres.
- Então, o que achas-te? – Perguntou uma voz atrás de mim e saltei com o súbito susto. – Desculpa!
Martha ria-se da minha reacção e vi Christopher também a rir. Ela entrou e sentou-se em cima da cama num salto. Olhava em meu redor como se estivesse num sonho difícil de acreditar.
- Então?
- Não tenho palavras. – Consegui dizer com o meu espanto.
- Anda! Vou-te mostrar o resto da casa. – Disse Christopher pegando-me da mão e arrastando-me do quarto. Custou-me desviar o olhar de tanta beleza.
Ele levou-me pelo corredor até outra porta. Quando entrámos deparei-me com uma espécie de escritório e laboratório. Como o resto da casa, era completamente século XIX. As paredes estavam repletas de livros e quadros de paisagens. Havia uma lareira acesa e dois cadeirões. Uma secretária estava perto da janela e estava apinhada de livros e outros objectos. Uma mesa de madeira redonda estava com objectos científicos como microscópios e um computador portátil.
- É aqui que Richard gosta de fazer as suas pesquisas. – Comentou Christopher ao reparar na minha cara de interrogação. – Ele gosta de brincar com a ciência.
Ele riu-se e aproximou-se da mesa redonda. Deu-me um livro para as mãos que li atentamente.
- Células humanas? – Perguntei confusa.
- Sim. Ele está a tentar arranjar uma espécie de cura para os vampiros se tornarem humanos. – Respondeu com um tom irónico na voz. Contudo, a sua cara ficou séria e os olhos negros vazios.
- Oh. – Foi a única resposta que consegui dar.
Ele abanou a cabeça como para acordar para a realidade e olhou para mim com os olhos cheios de brilho.
- Mas vamos.
Entramos noutro quarto. Este era mais simples que o meu com uma cama mais pequena. Porém, ainda havia um sofá de dois lugares e uma mesa de centro a meio com um armário ao fundo encostado à parede. Depreendi que fosse o “quarto” de Richard pois havia um computador portátil na mesinha de centro e os livros pareciam ser todos sobre ciência. Pelo menos aquela distância.
Seguimos o corredor até à porta mais próximo. Alguma coisa correu na nossa direcção e Martha parou subitamente o irmão. Com a rapidez dos seus movimentos apenas tive tempo para dar um pulo de susto antes de gritar.
- Este mostro eu. – Disse ela sorrindo abertamente.
Martha fez suspense. Rodou a maçaneta devagar, abrindo a porta lentamente, até a empurrar de maneira a que eu pudesse vê-lo.
- Wow. – Disse olhando em meu redor.
O quarto de Martha era, sem sombra de dúvida, o quarto mais bonito que alguma vez vira. Nada em comparação ao “meu” quarto. Aquele era em tons vermelhos e pretos, não num estilo gótico mas mais num estilo asiático. Uma parede estava pintada de vermelho e tinha um quadro abstracto que contrastava pois era branco. A parede da janela tinha pequenos adornos a preto, algum numa língua estranha. A sua cama dossel estava feita com roupas igualmente vermelhas e pretas. Um espelho de pé estava encostado a um canto e reflectia o quarto por completo, dando a sensação de estarmos em dois lugares em simultâneo.
- É… - Comecei ser ter palavras para terminar a minha frase.
- Ainda bem que gostaste. – Disse Martha fechando a porta do quarto para que eu pudesse ver o resto da casa.
Martha apressou-se a abrir a porta mesmo ao lado do seu quarto. Consegui ver pelo canto do olho Christopher sorrir.
- Este o quarto de Christopher. – Anunciou Martha dando-me passagem.
Era um quarto bastante simples, com pouca coisa. Achei-o bastante frio em comparação ao da irmã. Os seus tons brancos eram apenas contrastados pelos móveis de madeira escura. Olhei para Christopher e depois para o quarto. Nunca diria que era o dele. Esperava ver algo mais antiquado. Não frio.
- É bastante… - Comecei não encontrando palavras para descrever o que sentia ali. Tristeza com sofrimento em branco. Era confuso.
- Despretensioso? – Lançou Martha sem sorrir. Ela sabia o que estava a sentir. Talvez sentisse o mesmo quando ali entrava. O quarto do irmão do meio, do único que nunca conheço os pais verdadeiros. E talvez o único que sofria mais por ter perdido os únicos pais que conhecera. Com a excepção de Richard.
- Não era bem isso mas… creio que se pode utilizar!
Christopher deu uma pequena gargalhada e Martha sorriu abertamente. Avançamos para o próximo quarto. Devia ser o de Andy pois era o único que faltava. Porém, assim que eles abriram a porta dei por mim num mundo mais real. Uma biblioteca quase tão grande como a do meu avô em Kingston. Revestida de madeira escura, tinha livros do chão ao tecto. Ainda havia livros em cima de uma mesa de centro. Havia uma lareira com dois sofás à sua frente. De resto, não havia mais nada a não ser livros. Um paraíso.
- Vocês têm uma biblioteca? – Perguntei olhando em volta completamente absorta naquela magnifica vista. – É linda!
- Christopher disse que gostavas de ler. – Comentou Martha. – Achei que era melhor encher a biblioteca com outro tipo de livros.
- Encher a biblioteca? – Perguntei quando as palavras de Martha chegaram, atrasadas, ao meu cérebro. Olhei-a confusa.
- Sim. A nossa colecção estava toda em Kingston. Foi o único sítio que te devia ter apresentado quando lá estiveste. – Comentou Martha encolhendo os ombros. Quase que me apetecia bater-lhe por não ter feito tal. Principalmente se “aquela” colecção deles tinha estado a tão poucos metros da minha casa.
Quase que foi uma aventura retirar-me dali. Aqueles livros de lombada antiga estavam a gritar por mim. Mas lá consegui desviar o olhar e sair, olhando de relance quando Christopher fechava a porta. Ele abafou um riso e piscou-me o olho. Tentei sorrir-lhe mas ainda estava demasiado entusiasmada com a biblioteca para ter algum tipo de reacção.
Finalmente vi o quarto de Andy. Assim como o de Christopher, era de cores claras mas não tão frio. Ele tinha uma fotografia do Big Ben a preto e branco numa parede e a outra estava pintada de creme. Notava-se que era um quarto desabitado. Sabia que Andy não passava muito tempo lá.
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Próximo Capítulo:
Sonho

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Perdidos nos Capítulos [II]?

Voltaram-se a perder nos Capítulos?

No problems... Deixo-vos uma lista desde o Capítulo 1 até ao 20:

* Capítulo 1: Família Evan-Jones;

* Capítulo 2: Vencedor;

* Capítulo 3: Kingston;

* Capítulo 4: Vizinhos;

* Capítulo 5: Christopher McKevin;

* Capítulo 6: Desaparecido;

* Capítulo 7: Fim De Uma Vida;

* Capítulo 8: Funeral;

* Capítulo 9: Miradouro Na Colina;

* Capítulo 10: Sarar;

* Capítulo 11: Almoço Com Martha;

* Capítulo 12: Telefonema;

* Capítulo 13: A Sociedade;

* Capítulo 14: Revelações;

* Capítulo 15: F.A.Q;

* Capítulo 16: O Pedido de Christopher;

* Capítulo 17: De Caminho Para Londres;

* Capítulo 18: O Beijo;

* Capítulo 19: Em Família;

* Capítulo 20: Almoço Com Os Pais.

Capítulo 20: Almoço Com Os Pais

O - P E R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 19: Em Família)

"-Nada. Apenas queria estar um tempo sozinha contigo. – Confessei sem o encarar. Olhava para as minhas mãos entrelaçadas. Mas consegui senti-lo a sorrir e tal envergonhou-me.- Terás muito tempo para estares comigo. – Disse ele colocando um braço por cima dos meus ombros e encostando-me a si. – Podes sempre contar-lhes que vais para minha casa à hora do almoço."


Almoço Com Os Pais

Christopher abriu a porta de minha casa, dando-me passagem. Olhei-o furiosa por me arrastar de casa para irmos almoçar com os meus pais. Só esse pensamento fazia-me arrepiar. Já não me bastava ter a minha mãe felicíssima por ver a sua única filha apaixonada, ainda tinha que passar um almoço vergonhoso na sua presença. Parecia que tudo faziam para me envergonhar.
- Hoje vamos no meu carro. – Disse Christopher quando começamos a descer as escadas de pedra.
- Porquê?
- Porque o teu carro está bem estacionado na garagem. – Respondeu ele calmamente, apesar de ter notado um tom de piada na sua voz.
- Está bem. É na maneira que o meu pai passa o almoço a falar dele. – Comentei quando cheguei ao primeiro andar e ouvi a mesma discussão de sempre dos meus vizinhos. – É sempre a mesma coisa.
Seguimos em silêncio, deixando que os sons habituais de um prédio se fizessem ouvir. Uma porta a bater, uma criança a chorar, o vento lá fora, os meus vizinhos a gritarem, uma aparelhagem um tanto ou quanto alta. Todos os sons que me faziam sentir em casa estavam agora dispersos pela minha felicidade. Estava com Christopher e, se tudo corresse bem, podia ir para casa dele ainda naquele dia.
Christopher abriu-me a porta a rua, cavalheiro como sempre, avançando calmamente para me alcançar. Olhei para cima e para baixo da rua à procura do seu carro. Não era difícil encontra-lo uma vez que uma pequena multidão se tinha instalado a avalia-lo. Os olhares curiosos e assobios rapidamente cessaram quando Christopher carregou no botão da chave e o carro piscou, fazendo um som simplesmente divinal para quem era apaixonado por carros.
Assim que vi todos as caras viradas para nós, senti-me afundar num mar de pessoas. Christopher conseguiu abrir caminho para nós, abrindo-me a porta do lado do pendura e afastando as pessoas do carro. Mal ele fechou a minha porta, senti-me observada e vários olhos fulminantes podiam-me matar naquele preciso momento se não fossem os vidros da janela. Quando senti Christopher ao meu lado, corei alegremente por ver que as raparigas o olhavam babando-se e, tinha quase a certeza, diziam mal de mim. Era um sentimento bastante agradável, saber que estão completamente fascinadas por alguém que está fascinado por mim.
- Ficas-te famoso nesta zona. – Disse assim que Christopher pôs o carro a trabalhar.
- Vamos dares-lhe algum espectáculo? – Perguntou ele num tom jovial.
- O que é que queres dizer com isso?
Carregou no acelerador, fazendo o motor ronronar naquela sua maneira que deixava todos surdos. As pessoas começaram a afastar-se do carro, com as mãos levantadas como se estivessem a ser ameaçadas por alguma coisa. Um homem fingiu criar o som com a sua boca, brincando com os amigos enquanto estes riam do passeio.
- Segura-te!
O aviso de Christopher só me fez sentido quando ele arrancou numa velocidade proibida naquela zona. Ainda não tinha colocado o cinto de segurança e mal tive tempo para me agarrar alguma coisa quando fui projectada de encontro à porta e depois, com um solavanco, para a frente. Senti alguma coisa forte no meu peito, protegendo-me de sair pelo vidro da frente. Assim que o carro abrandou, o braço de Christopher estava à minha volta, protector.
- Era desta que ia voando pelo vidro. – Comentei endireitando-me e colocando o cinto o mais depressa que pude apesar das minhas mãos tremulas. – Obrigado!
Claro que no meio da cidade londrina Christopher não podia acelerar e “mostrar” o magnifico carro que tinha. Já me tinha bastado Kingston. Mas isso não permitiu que ele andasse devagar. Subimos uma rua deserta, exceptuando um ou dois carros, num limite de velocidade um pouco acima do que era permitido. Apenas me apercebi do quão rápido íamos quando ele começou a travar muito antes da passadeira.
- Podes andar mais devagar, por favor? Quero chegar viva ao almoço. – Comentei vendo a velhota lenta que atravessava a rua.
- Pensei que não querias almoçar com os teus pais? – Disse ele confuso.
- Sim, e não quero. Mas isso não quer dizer que queira fazer parte do alcatrão da estrada. – Respondi cruzando os braços.
A senhora atravessou a rua, sorrindo-nos antes de chegar por completo ao passeio, agradecendo o facto de não a termos atropelado. Quase que me apeteceu abraça-la pois fazia-me lembrar a minha avó materna que morrera quando tinha 15 anos.
- Está bem, eu ando mais devagar. – Disse Christopher arrancando com o carro numa velocidade permitida. Não me precisei de agarrar.
- Assim está melhor. – Disse suspirando de alívio.
Continuamos a andar por algumas ruas, vendo alguns olhos postos em nós. Tentei situar-me na cidade, olhando à minha volta. Sabia que íamos ter à galeria da minha mãe pois aquele era o trajecto que a minha camioneta fazia. Só depois é que a vi a parar atrás de nós.
- O melhor é saíres. Vou à procura de lugar. – Disse Christopher parando o carro mesmo à porta da galeria. Tinham colocado um papel branco na montra e não conseguia ver lá para dentro. Agradeci tal.
- Está bem. Mas volta rápido. – Disse antes de abrir a porta e sair.
Fiquei a ver Christopher acelerar pela rua, sabendo que ele deveria estar bastante satisfeito por poder andar à vontade. Voltei para a montra e suspirei várias vezes antes de olhar pela porta da frente e bater. Já sabia o que ia acontecer. As perguntas normais de uma mãe preocupada.
- Phoebs?! – Chamou uma voz atrás de mim e virei nos calcanhares. O meu pai vinha atravessar a rua, fazendo sinal ao carro que parara para ele passar. Sorriu-me e acenou-me, dando-me um beijo assim que chegou ao pé de mim. – Por aqui?
- Tu não sabes? – Perguntei apática.
- Não sei o quê? – O meu pai olhou para mim confuso antes de avançar para a porta.
- A mãe convidou-me, a mim ao Christopher para almoçarmos juntos. – Respondi com alguma esperança que o meu pai não achasse tal completamente apropriado. Não sabia porquê que queria que ele pensasse assim.
- Fez ela muito bem. – Comentou o meu pai espreitando pelo vidro. – Bolas!
- O que foi? – Perguntei.
- Não dá para ver nada. – Disse ele cruzando os braços. – Queria mesmo ver a galeria.
- Pois, parece que vais mesmo ter de esperar.
Ficamos ambos de braços cruzados, cada um a vigiar um lado da rua. Eu mantinha-me ocupada a olhar para cima, para onde Christopher tinha desaparecido, enquanto o meu pai vigiava para baixo, onde a rua terminava numa curva estranha que dava para uma pequena praça atarracada de bancas de venda.
Ouvimos a porta abrir atrás de nós e viramo-nos ao mesmo tempo, vendo a minha mãe sair.
- Olá! – Disse ela dando um beijo ao meu e depois a mim.
- Não posso entrar? – Perguntou o meu pai tentando espreitar pela porta encostada. A minha mãe virou-lhe a cara para a encarar e abanou a cabeça. – Bolas!
- Onde está o Christopher? – Perguntou a minha mãe virando-se para mim ainda com as mãos na cara do meu pai, para se certificar que ele não cai em tentação. Sorri.
- Foi estacionar. Já sabes como é esta zona. – Respondi olhando para os pés enquanto brincava com eles.
- Ok. Queres entrar? – Perguntou-me ela, apontando com o queixo para a galeria. O meu pai abriu a boca, indignado.
- Porquê que à ela convidas e a minha não? – Perguntou o meu pai, num tom de voz triste e irritado ao mesmo tempo. Fazia lembrar uma criança que vê a irmã a receber um presente quando ele não recebe nenhum. Ri-me da sua atitude, aliviando alguma tensão dos meus ombros.
- Porque é que pareces uma criança a fazer beicinho? – Brincou a minha mãe apertando as bochechas ao meu pai. – Além disso, quero que vejas quando estiver pronto. E ainda não está, portando, ficas à espera.
- Boa Tarde, desculpem o atraso. – Disse uma voz atrás de mim, fazendo-me pular com a surpresa, apesar de boa e de eu estar à espera.
- Olá Christopher. Não te preocupes. – Cumprimentou a minha mãe, sorrindo alegremente e virando-se para ele.
O meu pai apertou-lhe a mão enquanto eu começava a tremer. Era estranho estar naquela situação. Não que os meus pais já não tenham conhecido os meus namorados – não que eles tenham sido muitos – mas nunca um vampiro. Estava sempre há espera de me descair e dizer que ele era um ser mítico que ninguém sabe que existe. Mas no meu subconsciente sabia que, se fizesse, eles apenas iam à procura de um médico para me ver.
- Vou só buscar a minha mala. Phoebe, toma conta do teu pai até eu sair. – Pediu ela colocando uma mão no meu braço.
- Está bem.
Ela desculpou-se e apressou-se a entrar na galeria, fechando a porta fortemente e desaparecendo. Ainda a conseguimos ouvir a gritar o nome do Gary. Rimo-nos perante o histerismo da minha mãe.
A minha mãe saiu tão rapidamente como entrou. Ainda vinha a vestir o casaco quando Gary espreitou cá para fora e disse-lhe algo muito rápido. Ele acenou-nos e depois fechou a porta.
- Muito bem, vamos almoçar?

O almoço até nem estava a decorrer assim tão mal como eu esperava. Muita palhaçada por parte da minha mãe e algumas piadas mesmo engraçadas do meu pai. Christopher parecia estar-se a divertir e eu não conseguia parar de rir com as histórias absurdas que o meu pai contava que aconteciam no escritório. Parecia que os meus medos em relação a conversas que me pudessem deixar extremamente embaraçada tinham passado e estava, ao fim de algum tempo, a passar um óptimo bocado com aqueles que amava.
- Então e vocês? – Começou o meu pai, acabando de limpar uma lágrima que lhe surgia por ter estado a rir. – Que contam?
Olhei atrapalhada para Christopher. Ele estava a sorrir e passivo. Ao contrário de mim que não sabia o que dizer a não ser “eeerrrr…. Eeerrr ”.
O que deveria dizer? Que estava completamente apaixonada por Christopher? Isso eles já sabiam apesar de ser óbvio. Que ele e os seus irmãos eram vampiros? Fora de questão. Eles apenas não acreditariam e provavelmente iam-se rir de mim. Que era a neta de um caçador de Lobisomens cujas presas estavam a seguir? Não me parece que isso fosse um tema interessante. Que ia-me mudar por tempo indefinido para casa dos McKevin? Talvez já estivesse as malas feitas antes de chegar a casa.
Fiquei corada por sentir-me observada por dois adultos cujos olhos brilhavam. Fingiam ainda estar a mastigar para poder falar.
- Portanto… er… Pai, sabes que o Mark pediu a Laura em casamento? – Perguntei tentando desviar a conversa do “ir para casa dos McKevin” que tanto queria despachar.
- Já. A tua mãe não conseguiu aguentar e contou-me. – Respondeu ele sorrindo. – Estou muito feliz por eles. A Laura já faz praticamente parte da família.
- É. Também fiquei feliz. – Comentei sentindo-me realmente feliz pela minha melhor amiga. – E… bom… há algo que queria dizer-vos…
- Vá Phoebs, dispara. – Disse o meu pai olhando para o prato enquanto cortava a sua comida. A minha mãe olhava para mim por baixo daquelas suas pestanas sempre impecáveis baralhada. Alguma coisa tinha-lhe escapado.
- É mais anunciar-vos do que dizer-vos. – Comecei olhando para Christopher à espera da sua ajuda. Ele apenas fiz-me sinal para continuar e sorriu-me. Suspirei fundo discretamente e deixei as palavras saírem. – Vou morar com os McKevin durante um tempo.
As palavras soaram estranhas mas os meus não pareceram nada surpreendidos. A minha mãe sorriu abertamente como se sempre soubesse do que se tratava e o meu pai olhou de relance para mim e para Christopher e continuou a comer.
“Foi fácil. Boa Phoebe.” Pensei para comigo quando eles pareceram dar pouca importância ao assunto. Supostamente já me achavam grande o suficiente para decidir o meu futuro sozinha.
- Está bem. E quando estás a pensar ir? – Perguntou o meu pai pousando os talheres e olhando para nós. Não num olhar de pai, ou de advogado, ou até mesmo de protector, mas num olhar de quem confia plenamente em nós e que sabe o que fazemos. Um olhar amigável e doce, quase terno.
Algo dentro de mim pareceu quebrar e uma pontada de dor surgiu-me no peito, uma dor que não sentia há já algum tempo e que pensei nunca mais vir a sentir. Ao olhar para o meu, vendo-me reflectida nos seus olhos que eu herdara dele e que ele, por sua vez, herdara do pai, senti a falta do meu avô. Aquele olhar era como o do meu avô. Suave e gentil, estendia-se num sorriso aberto onde as covinhas nas bochechas eram fundas.
O aperto aumentou de tamanho, fazendo-me quase ficar sem respiração. Tudo numa fracção de segundos. Segundos esses que somente Christopher notou pois olhava-me preocupado enquanto os meus pais ainda me olhavam amigavelmente.
Bebi um pouco de água. Parecia que a dor ia desaparecendo com cada gole que dava. Tentei ser o mais discreta que podia, enchendo o copo de novo. Aos poucos a dor começou a diminuir, acabando por ser apenas um sentimento fantasma dentro de mim que tentava, agora, ignorar.
Forcei um sorriso e olhei para Christopher para que este se apercebesse que estava melhor. Tudo isto aconteceu em menos de um minuto. Tempo o suficiente para que os meus pais não notassem.
- Talvez hoje, amanhã! Ainda não sei bem. – Respondi começando a sentir entusiasmada com a “mudança”. A minha mente já estava a trabalhar longe, numa casa intemporal com três vampiros, ou quatro – contando que Richard também estaria lá – a planear uma maneira de acabar com Boris.
- Se calhar amanhã fosse melhor. – Disse Christopher interrompendo os meus pensamentos. Olhei para ele quase num suplício. Queria estar com ele, sozinha. Arrastar a coisa era algo penoso apesar de ter sugerido o dia seguinte. A ideia começava a não ter piada se não fosse posta em execução logo.
- Sim, o melhor é mesmo amanhã. – Concordou a minha mãe num tom maternal. – Dá-te mais tempo para arrumares as tuas coisas.
- Mas… - Estava confusa. Não sei onde a minha mente tinha estado mas estava a sentir-me estranhamente confusa. – Vocês não se importam que vá para casa de Christopher?
Os meus pais entreolharam-se e encolheram os ombros. A conversa que tinha criado na mente sobre o ser já adulta tinha sido apenas uma especulação minha sobre os seus pensamentos. Mas agora era eu quem pensava. Eles eram meus pais e não diziam nada. Eu ia para casa do homem de quem estava apaixonada. E eles nem sabiam se os irmãos dele estavam em Londres. Tanto quanto eles sabiam podia estar a pensar numa fuga do país.
- Phoebe… - Começou o meu pai calmamente. – Claro que não. Está na altura de pensares sobre a tua vida e não dependeres de nós. Mais tarde ou mais cedo terás de tomar decisões sozinha pois não as podemos tomar por ti.
Não espera aquilo. Não esperava tamanho entendimento deles. Apenas esperava palavras de encorajamento sobre aquela decisão. Não sobre todas as minhas futuras decisões. Estava, realmente, a crescer. Estava assustada.
- Não se preocupem. O meu pai concordou e já está à espera. – Disse Christopher realçando o ponto que eu espera que eles temessem.
- Ainda bem. É muito simpático da vossa parte. – Comentou a minha mãe sorrindo abertamente a Christopher.

Saímos do restaurante passava pouco das três da tarde. Tínhamos perdido noção do tempo e só quando o telefone do meu pai tocou, é que decidimos sair. Cada um de nós seguiu o seu caminho. A minha mãe apressou-se para a galeria onde Gary estava a sua espera com algumas dúvidas em relação à decoração. O meu pai foi para o centro de Londres, embirrando enquanto falava ao telefone com alguém do escritório de quem começava a sentir pena. Patrick Evan-Jones chateado por um caso consegue ser um terror e o nosso pior pesadelo. Por isso ele ser um dos melhor advogado que conhecia.
Eu e Christopher entramos no carro em silêncio. Ainda tinha o aperto no peito e a estranha sensação de estar a ver tudo por outros olhos e não pelos meus. Estava distante e sabia-o. Mesmo quando Christopher me tinha dado a mão quando nos separamos dos meus pais. Somente quando a música do carro começou é que comecei a trazer a minha mente à realidade, aos poucos para não ser brutalmente surpreendida.
- O que foi? – Perguntou Christopher tocando levemente na minha cara. Mais um pedaço de mim voltou à vida.
- Estava… longe. – Respondi suspirando. – Talvez num mundo paralelo onde este almoço não tenha sido…
- Estranho? – Continuou ele dando uma pequena gargalhada. – Sei o que queres dizer.
- Sabes?
- Não foi só estranho para ti. – Disse ele olhando-me de relance. Devia estar com uma expressão atordoada ou completamente desengonçada pois ele voltou a dar uma pequena gargalhada. – Tens consciência que para os teus pais somos, oficialmente, namorados?
- O quê? – Perguntei aterrorizada sem saber porquê. Não era bem aquilo que tinha em mente mas a faísca criou fogo e estava, estupidamente, surpreendida por não ter entendido antes.
- Porquê? Não era isso que estavas a pensar? – Perguntou ele quando me viu a olhar pelo vidro da frente e fixar o vazio.
- Nem por isso… mas deixa estar. – Comentei abanando a cabeça, sorrindo a sério e olhando carinhosamente para ele. – Era um pensamento mais… feminino.
- Apenas queria saber o que te aconteceu. – Disse Christopher seria e preocupadamente.
- O que me aconteceu? – Sabia do que ele estava a falar mas lembrar-me da dor era traze-la de volta, mesmo que fosse fantasma.
- Por momentos pareceste em agonia. Estavas em pânico, a sofrer. – Disse ele apertando o volante fortemente e perdendo o brilho nos seus olhos negros.
- Posso falar disso depois, quando não for assim tão recente? – Perguntei com a dor a querer aparecer de novo. – Prometo que te conto depois.
- Está bem.
O aperto no volante cessou e ele sorriu-me. Esticou a sua mão para me voltar a tocar na cara. Encostei-me a ela e deixei-me seduzir pelos círculos que ele criava com o dedo na minha face. Era reconfortante.
- Posso perguntar-te uma coisa? – Perguntei calmamente. Os círculos na minha face pararam um bocado para recomeçarem novamente.
- Diz.
- Demoraste muito tempo a estacionar o carro ou foste fazer outra coisa?
- Fui fazer outra coisa. – Respondeu ele num tom sério. – Telefonei a Andy para saber como estavam as coisas em Kingston.
Os meus sentidos de alerta ligaram e eu pus-me direita no banco do carro, deixando a sua mão cair. Olhei-o – fitei-o mais concretamente – esperando o resto da frase. Sentia o coração a disparar. A minha avó e Andy. Será que Boris voltou para Kingston? Será que Andy estava bem? E a minha avó?
- Calma, está tudo bem. – Disse ele como se tivesse lido os meus pensamentos. Sorriu-me brevemente e senti-me suspirar. Porem os sentidos alerta continuavam em alta. – A tua avó está a salvo. Andy pediu a umas pessoas para ficarem de olho nela.
- Quem? – Perguntei desconfiada. Não confiava em mais ninguém a não ser neles; Andy, Martha e Christopher. Como ainda não conhecia Richard, não podia dizer que confiava nele plenamente, mas tinha uma sensação que ia confiar tanto nele como confiava no homem que ia a conduzir ao meu lado.
- Alguns vampiros da zona. Não te preocupes, está tudo bem.
- Então porquê que telefonaste a Andy?
- Ouvi algo que me puxou a curiosidade. Apenas queria averiguar.
- O quê?
Começava a temer. Nem mesmo em Londres o meu medo dos olhos sangrentos que haviam-me atacado há já algum tempo, desaparecia. Boris deveria estar bem perto da cidade. Se é que já não estava.
- Sabes que daqui a duas semanas é Lua Cheia? – Perguntou ele como se eu não tivesse perguntado nada num tom um pouco mais histérico do que o normal.
- Não! Isso é relevante?
- Boris não é um Lobisomem na ascensão da palavra. Ele pode-se transformar em lobo quando quiser. Mas a Lua Cheia é quando ele está mais forte. É quando todos os seus sentidos se tornam mais aguçados. É a pior altura para a vítima de um Lobisomem. Quer dizer, qualquer altura é má, mas na Lua Cheia não há hipótese de saíres com vida de um ataque ou até mesmo de saíres mordida e pronta para seres como ele. Nessas noites, somente a morte é a única maneira de lhe escaparmos. É a que mais temo.
A minha mente imaginou um lobo a uivar em plena Lua Cheia. Uma imagem bonita que se transformou num mar sangrento assim que os gritos ecoaram e o vermelho passou a adornar a lua. Uns olhos sangrentos observavam da distância e uns dentes cobertos de sangue eram visíveis. Não eram dentes de vampiros, dentes como os e Christopher, eram maiores e mais temíveis. Dentes de Lobisomem.
A minha espinha arrepiou-se de tal forma que soltei um gemido. Quando me apercebi, Christopher tinha-me dado a mão. Apertava-a fortemente, não de maneira a quebrar-ma como tinha sido quando nos conhecemos, mas de forma apaziguadora, protector, confortante.
- Temes porquê? – Perguntei a medo. Era de mim ou estava a tremer de frio? Não, definitivamente não estava a tremer de frio. Estava com medo.
- Porque ele pode atacar-te e nessa altura não somos fortes o suficiente para te proteger. Nenhum de nós, nem mesmo Andy!
- Há alguma forma de o combatermos na Lua Cheia?
- Apenas a arma que o meu pai desenvolveu. Mas como te tinha dito, Boris apanhou-a nos anos 30 e não sabemos como a reconstruir.
- De certeza que haveremos de encontrar uma maneira.
“Espero eu!”
A mão de Christopher subiu ainda com a minha na dele para me acariciar a cara. Ele forçou um sorriso encorajador, mas sabia que por detrás daquele sorriso estava um medo enorme. Sabia que, se ele pudesse, íamos para longe onde a palavra Lobisomem fosse desconhecida e onde estaríamos todos em segurança. Mas Boris não era parvo. Pelo menos daquilo que eu aos poucos ia aprendendo dele. Seguir-me-ia até ao fim do mundo, mesmo se fosse para um planeta a milhões de anos de luz. Ele nunca me iria deixar ir, sendo a última Evan-Jones.
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Próximo Capítulo:
Número 45

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Capítulo 19: Em Família

O - PE R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 18: O Beijo)

"Ficámos no café até a noite começar a cair. Tínhamos perdido a noção do tempo com as nossas conversas. Era tão bom voltar a estar com os meus amigos. Parecia que tudo o que tinha acontecido no passado recente não tinha passado de puros pesadelos por esquecer. Claro que não lhes tinha contado a história dos lobisomens que andavam atrás de mim nem do vampiro por quem me apaixonara ou da sua família vampírica com a qual ia morar. Para eles, Christopher era um rapaz típico que adorava ser antiquado."

Em Família

Apressei-me a entrar no autocarro com um rumo diferente. Iria ter com a minha mãe à galeria e seguiria para casa com ela. Tinha prometido ao meu pai que me encontraria com ela antes de ir para casa, mas o café com os meus amigos tinha-se arrastado pela tarde fora, e já eram quase horas de jantar. Conhecendo a minha mãe como conhecia, ela só iria para casa depois da hora do jantar.
Sai na minha paragem, correndo quando a chuva começava a cair aos poucos. Abriguei-me debaixo do toldo de uma loja e olhei para a rua cheia de gente que tentava correr e escapar igualmente da chuva. A galeria era ao fundo da rua mas de certeza que me iria encharcar antes de lá chegar. Sorri sem saber porquê e sai debaixo do toldo, não me importando com as gostas grossas que molhavam o meu casaco creme. Apenas me deixei levar pelas minhas pernas, sentindo a chuva fria bater-me na cara e sentindo os olhos dos estranhos em mim pensando se estaria louca.
E estava, porém estava louca noutro sentido. Todos os meus problemas pareciam estar a ser lavados pela chuva e dentro de mim um estranho sentimento crescia. Apetecia-me pular de alegria e dançar com as pessoas.
Cheguei à galeria da minha mãe completamente molhada e espreitei pela janela de vidro, vendo-a atrapalhada, andando de um lado para o outro com livros e rolos de papel nas mãos. Vi-a falar com um homem que reconheci como sendo o seu colega Gary e bati levemente à janela. Ela virou-se surpreendida e sorriu-me quando me reconheceu. Fez um gesto a Gary e fez-me sinal para entrar.
- Phoebs, estás encharcada. – Disse a minha mãe quando entrei pela porta que ela abria. Pingava o chão tapado com papel branco e corei bruscamente. – Anda!
Segui-a pela galeria, cumprimentando Gary, o seu colega de cabelos louros e olhos azuis que faziam qualquer mulher se derreter. Era a primeira vez que entrava na galeria após as obras. Estava diferente, muito mais moderno e mesmo à galeria. As paredes eram brancas com uns laivos sem sentido vermelhos e pretos. As poucas prateleiras que enchiam as paredes estavam pintadas com as mesmas cores. Havia uma coluna a meio com várias frases escritas a preto, muitas das frases de artistas literários bastante conhecidos, tudo sobre a arte.
Vira-mos para uma porta igualmente vermelha com o símbolo de WC a preto e entrámos.
O contraste chocou-me.
As paredes eram completamente negras, as portas dos cubículos eram vermelhas o que nos deixava um pouco atordoados quando entrávamos. Nas era óptimo, pelo menos eu gostava.
- Toma, seca-te. – Disse a minha mãe abrindo um armário e dando-me uma toalha. – Vou ver se tenho alguma roupa no cacifo.
- No cacifo? Andas sempre prevenida. – Comentei começando a secar o meu cabelo. Tinha o cheiro da chuva e eu adorava isso.
- Claro! Com as obras nunca se sabe quando precisamos de uma muda de roupa. Ainda nos dão com um balde de tinta. Espera aqui. – Ela saiu da casa de banho e eu comecei a desapertar as minhas roupas, descolando-as do meu corpo.
O que é que tinha em mente quando sai debaixo do toldo?
Observei a minha cara corada ao espelho e notei que irradiava felicidade. Era estranho ver-me a brilhar, pelo menos no último mês nunca me tinha visto assim. Apenas via um fantasma com olhos castanhos-escuros e com a pele pálida.
- Aqui está. – Disse a minha mãe entrando na casa de banho com umas calças e uma camisola verde de gola alta nas mãos. Era uma sorte vestir o mesmo número que ela. – As calças devem-te estar um pouco grandes.
- Não faz mal. Obrigado mãe. – Entrei num dos cubículos e tirei a minha roupa por completo, atirando-a à minha mãe.
- O teu pai telefonou-me a dizer que já tinhas chegado e que era capaz de vir cá ter. – Comentou ela do outro lado.
Estava a ser difícil retirar as minhas calças de ganga pois colavam-se de tal maneira às minhas pernas que quase caía.
- Fui ter com a Laura e com o Mark antes de vir para cá. – Disse conseguindo finalmente tirar as calças e atirando-as à minha mãe. – Sabes que o Mark pediu-a em casamento?
- A sério?
- Sim. Também fiquei chocada. – Disse rindo-me do tom de voz surpreso da minha mãe do outro lado. – Ela está felicíssima.
- Imagino. – Comentou ela e ouvi o som de plástico. Ela devia estar a colocar a minha roupa molhada dentro de um saco. Apressei-me a passar a toalha pelo meu corpo aquecendo-o. – Já telefonas-te à avó?
- Oh não! Esqueci-me. – Parei tudo o que fazia com o choque de me ter esquecido da minha avó. – Ela vai-me matar.
A minha mãe riu-se do outro lado.
- O teu pai já lhe telefonou. Ele disse-me que Christopher levou-te a casa e que estavas radiante. – Notei que o seu tom de voz era de curiosidade e que esperava que eu dissesse alguma coisa. Mas fiquei em silêncio, vestindo a sua roupa enquanto tentava respirar com calma. – A viagem foi boa?
- Foi! – Respondi abrindo a porta do cubículo e olhando-me ao espelho, pronta para me pentear com os dedos. Vi a minha mãe encostada à porta de um dos cubículos, olhando-me com um sorriso estranho, que nunca vira antes. – O que foi?
- O teu pai tinha razão.
- Como assim? – Comecei a ficar com medo da conversa. A única vez que tivera a conversa sobre rapazes com ela foi aos meus 12 anos. Mas naquela altura não tinha ninguém nem gostava de ninguém. E agora tinha 20 anos, já tinha tido uma ou outra paixoneta e estava perdidamente apaixonada por Christopher.
- Estás apaixonada. – Respondeu ela sorrindo-me e aproximando-se. – Nota-se bem.
- Vocês importam-se? – Resmunguei abrindo a torneira e lavando a cara. – Já Laura me veio com essa conversa. Agora tu?
- Apenas diz-me…
- Mãe… - Chamei limpando a cara à toalha e enfrentando-a. – Por favor, importas-te de mudar de assunto?
- Porquê? – Perguntou ela confusa.
- Porque esse tema é pessoal e não me apetece falar mais nisso. – Respondi sentindo uma pontada de fúria subir por mim acima. – Já chega!
- Pronto, está bem. – Cedeu a minha mãe e notei que o seu sorriso tinha desaparecido e que estava triste. – Apenas queria saber.
- Eu sei. – Disse abraçando-a fortemente. – Somente não quero falar nisso, agora!
A minha mãe acabou por me fazer uma visita guiada à galeria. Claro que ainda não estava completa, faltava ainda algumas paredes pintadas, os quadros, luzes e outros. Mas consegui perceber bem o que ela pretendia.
Gary estava entusiasmado com a abertura e começava a contar-me como seria a inauguração. Eles estavam a pensar utilizar a noite de fim de ano como festa de inauguração e eu achei a ideia óptima. Era sempre melhor que estar em casa.
Notava-se bem que eles os dois adoravam o seu trabalho, sempre animados quando falavam de como estaria a exposição e do que pretendiam após a abertura. A minha mãe não cabia em si de tanto orgulho. Sabia que era um dos seus grandes sonhos, ter uma galeria com os seus trabalhos expostos, e agora estava a conseguir isso. Adorava vê-la feliz.
Saímos juntas da galeria, deixando Gary terminar o seu trabalho com os construtores e apressamo-nos apanhar um táxi. A chuva tinha cessado mas algumas gotas ainda caiam.
A cidade à noite era estranha. A escuridão misturava-se com as luzes dos carros, dos candeeiros da rua, dos holofotes das lojas ainda abertas. Era muito amarelada. Preferia-a de dia.
Chegamos a casa e já o meu pai tinha feito o jantar. Algo que me deixou admirada pois ele detestava estar na cozinha. Mas tive que admitir que o comer estava bastante bom. Quando lhe perguntei o porquê aquilo, apenas me respondeu que era a celebração de ter chegado a casa.
Jantamos lentamente, falando do caso do meu pai e eu contei-lhe como estava a ficar a galeria. A minha mãe tinha-o proibido de entrar lá até à noite da inauguração. Queria que ele visse aquilo quando já estivesse pronto. Ri-me da sua cara quando ela me tentou calar com os pormenores das cores, da coluna que tinha amado e outros. Um jantar típico de família. Agradeci o facto de não terem tocado na conversa de Christopher. Por acaso, até achei estranho, mas não comentei.
Arrumamos a cozinha os três, algo que era sempre divertido uma vez que o meu pai quase partia os pratos quando os colocava na máquina. Pela primeira vez num mês senti-me em família.
Adormeci assim que cheguei à cama. Estava tão cansada que os meus olhos nem me deixaram raciocinar o dia completo. Adormeci com a lembrança do beijo de Christopher e com um sorriso nos lábios.
O dia chegou cedo demais mas mesmo assim acordei bem-disposta. Um novo dia estava a começar e com ele, uma possibilidade de ver Christopher. Levantei-me imediatamente, abrindo a mala que ainda não tinha arrumado e escolhendo uma roupa leve e bonita. O sol entrava pela minha janela e mostrava que o tempo estava bastante bom. Era o único mal de Londres; nunca se sabia como o tempo iria estar.
Arranjei-me, tomando um grande banho quente e demorando imenso tempo na casa de banho, sempre a ver se estava bem arranjada ou não. Precisei de me olhar ao espelho pelo menos três vezes antes de ir para a cozinha.
Os meus pais já tinham saído, o que fez com que ligasse o rádio da sala e colocasse um CD enquanto tomava o pequeno-almoço. Era raro fazer aquilo logo de manhã, mas a minha disposição fazia-me cometer loucuras.
Enchi a taça com cereais e comi devagar, ouvindo a música a tocar enquanto mastigava.
A porta tocou e eu quase me engasguei com o susto. Antes de ver quem era, baixei o volume e arranjei os almofadões da sala. Espreitei pelo óculo e o meu coração disparou. Christopher esperava do outro lado da porta e eu tentava respirar calmamente enquanto rodava a maçaneta e abria a porta.
- Olá. – Disse ele sorrindo-me abertamente e aproximando-se de mim. – Dormiste bem?
- Por acaso dormi. – Respondi e desta vez fui eu que fui apanhada de surpresa.
Ele abraçou-me e encostou os seus lábios aos meus, beijando-me docemente enquanto eu recuava e tentava fechar a porta não querendo ser vista pelos meus vizinhos. Atrapalhei-me e quase cai quando tropecei no tapete. Ele olhou para mim e riu-se enquanto eu corava imenso e avançava para a cozinha para acabar o que estava a fazer.
- Não esperava ver-te assim tão cedo. – Comentei enquanto me sentava no meu lugar e continuei a comer os meus cereais. Ele sentou-se à minha frente, observando-me atentamente como fazia sempre que comia. Não era propriamente a coisa que mais gostava.
- Eu sei. Apenas queria-me certificar que estavas bem. – Respondeu ele com um sorriso alegre, mais alegre do que estava habituada. A minha colher ficou a meio do seu trajecto quando olhei para ele.
- Alguma novidade? – Perguntei fingindo-me interessada, somente para retomar a rotina da minha colher. – Já falaste com o Andy?
- Já. – Respondeu Christopher demasiado calmo. – Boris já se apercebeu que não estás em Kingston.
- E a minha avó? – Perguntei subitamente em pânico. – Já está a salvo?
- Andy vai ficar por lá durante mais uns dias somente para se certificar que os Lobisomens foram de vez. – Disse ele colocando uma mão na que eu tinha livre. – Não te preocupes.
- Eu sei. – Comentei sentindo-me mais tranquila.
Terminei de comer mais depressa do que é habitual. Talvez o olhar intenso de Christopher em mim me faça fazer as coisas mais depressa. Assim que terminei coloquei a taça na máquina e virei-me para ele.
Parecia uma cena retirada de um filme. A luz do sol incidia sobre o seu olhar negro brilhante enquanto ele estava encostado à ombreira da porta, observando com um sorriso doce nos lábios. Senti um aperto do estômago quando me aproximei dele, pronta para ir para a sala. Mas os seus braços rodearam-me, prendendo-me perto dele onde me deixei ficar. Sabia bem, estar assim tão protegida apesar de saber que os outros podem estar em perigo. Mas naquele momento, não queria saber. Apenas queria ficar assim com ele, esquecendo o mundo cruel à nossa volta.
- Pensativa? – Perguntou ele quando se apercebeu que a minha mente começava a pensar em demasia.
- Ainda não contei aos meus pais que vou para vossa casa. – Confessei esperando sentir o seu abraço afrouxar. Mas continuaram forte.
- Sempre podes contar mais tarde. – Disse ele ao meu ouvido, tão calmamente que pensei ter imaginado a sua frase.
- Não! Tenho que os avisar com antecedência. – Respondi afastando-me um bocado para olhar para a sua cara. – Pelo menos para lhes dar tempo para protestarem.
- Queres que eles protestem? – Perguntou ele num tom magoado. Sorri e acenei-lhe com a cabeça. Sabia que ele ia entender aquilo de maneira errada.
- Se eles protestarem é porque querem que vá. – Respondi olhando para as suas mãos. – E tenho quase a certeza que eles vão protestar.
- Ah, agora entendo. – Comentou ele dando uma pequena gargalhada. Estava tão bem-disposto que parecia humano. – Então, espero que eles protestem.
Senti-me corar sem saber bem porquê. Talvez porque ele tenha colocado uma mão na minha cara, acariciando-a carinhosamente antes de tocar levemente nos meus lábios. Ou então porque ele trocou o leve toque de lábios num beijo apaixonante. De qualquer maneira, corei e não parei de corar.
- Martha já está em Londres. – Comentou ele segundos depois do nosso, tecnicamente, terceiro beijo.
- Onde é que ela esteve antes? – Perguntei com a minha mente ainda confusa.
- No Norte com alguns vampiros amigos nossos. – Respondeu Christopher sorrindo levemente. – Os nossos contactos.
- Ui, parecem a máfia vampírica. – Brinquei, conseguindo-me afastar dele e encaminhando-me para a sala.
- É mais a Liga vampírica. – Reformulou ele sentando-se na poltrona onde o meu pai se costumava sentar à noite quando tinha mais tempo. A confortável cadeira que outrora pertencera aos antepassados da minha mãe. Uma relíquia.
- Mas porquê?
- Recolher informações sobre os andamentos de Boris. Queríamos saber se Boris tem atacado ultimamente.
- E os vossos contactos sabem isso?
- Por isso é que são os nossos contactos.
- Está bem.
Ficamos a olhar um para o outro quando o silêncio reinou. Não queria fazer as milhentas perguntas que tinha na minha mente, estragar o ambiente que se tinha instalado sobre nós desde o dia anterior. Tinha pensado que aquele outro beijo não tinha acontecido. Que tinha sido fruto da minha imaginação. Mas assim que Christopher entrou em minha casa, sabia que estava errada. Tinha acontecido. Era mais real do que pensara.
O telefone de casa tocou e eu pulei, quase gritando de susto, tendo sido apanhada de surpresa. Christopher abafou um riso e eu apressei-me a atende-lo. Era a minha mãe.
- Estou, olá mãe! – Disse ainda antes de a ouvir do outro lado.
- Olá filha. Está tudo bem?
- Está! O Christopher está aqui. – Disse sem pensar enquanto olhava para ele. Quase conseguia visualizar o sorriso trocista da minha mãe do outro lado, fazendo gestos a Gary dizendo-lhe que estava com um rapaz em casa. Revirei os olhos perante a minha estupidez.
- Ainda bem. – Disse ela do outro lado num tom que eu sabia trazer alguma coisa. – Porque não vêem almoçar connosco?
- Convosco? Quem?
- Eu e o teu pai, tontinha. – Respondeu a minha mãe dando uma pequena gargalhada. – Quem querias que fosse?
- Ah, espera ai que eu pergunto-lhe se querer.
Encostei o telefone ao meu ombro e olhei para Christopher. Ainda antes de abrir a boca ou ajustar o foco da minha visão, ele estava ao meu lado, pegando no telefone e falando para a minha mãe.
- Estou, Grace. Olá é o Christopher! – Consegui ouvir a voz histérica da minha mãe do outro lado a cumprimenta-lo. Comecei a elaborar um plano para a destruir. – Por mim pode ser. Está bem. Estaremos ai.
Christopher entregou-me o telefone e sorriu-me. Estava furiosa. Apetecia-me gritar com a minha mãe, dizendo-lhe que queria estar sozinha com Christopher, eu e ele. Ele e eu.
- A tua mãe manda-te beijos. – Acabou ele por dizer quando não colocava o telefone no sítio e não me mexia, fulminando-o com o olhar. – Phoebe?!
Acordei para a realidade quando ele me tocou nas mãos. Como sempre, estavam frias, e o encontro de frio e quente deu-me choque. Coloquei o telefone no sítio e sentei-me no sofá, olhando para ele.
- O que foi? – Perguntou ele sentando-se ao meu. Estava preocupado.
-Nada. Apenas queria estar um tempo sozinha contigo. – Confessei sem o encarar. Olhava para as minhas mãos entrelaçadas. Mas consegui senti-lo a sorrir e tal envergonhou-me.
- Terás muito tempo para estares comigo. – Disse ele colocando um braço por cima dos meus ombros e encostando-me a si. – Podes sempre contar-lhes que vais para minha casa à hora do almoço.
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Próximo Capítulo:
Almoço Com Os Pais

Domingo, Novembro 08, 2009

Capítulo 18: O Beijo

O - PE R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 17: De Caminho Para Londres)

"Por instantes senti os olhos pesados e tentei mantê-los abertos, querendo aproveitar a viagem toda, até ao fim. Não queria dormir pois tinha medo de ter pesadelos com Lobisomens e vampiros acabados de transformar. Mas era mais forte que eu e os meus olhos cederam. Apenas senti algo quente a tapar o meu corpo e quase podia acertar ser o casaco de Christopher. "

O Beijo

Acordei sem saber quanto tempo tinha passado. Notei que a música já não era a mesma. Era uma banda mais calma, com uma voz feminina. Aquela banda que chamava nossa agora. Aquela que ambos gostávamos.
- Dormiste bem? – Perguntou a voz calma de Christopher no lugar do condutor.
Sentei-me direita, sinto as minhas costas estalarem enquanto esticava os braços e olhava à minha volta. Ainda estávamos na auto-estrada mas já deveríamos estar bastante perto de Londres. Alguma coisa caiu-me para o colo e as minhas dúvidas estavam esclarecidas. Era o casaco de Christopher que me tapava. Lá fora, o tráfico de carros começava a aumentar, um sinal para que Londres estava quase à mostra, e o dia começava a aquecer.
- Quanto tempo estive a dormir? – Perguntei com uma voz ainda sonolenta.
- Há coisa de uma hora. – Respondeu ele calmamente.
- Desculpa. Não queria ter adormecido quando estás a conduzir. – Desculpei-me sentindo-me gelada e vestindo o casaco dele.
- Não faz mal. Queria que descansasses de qualquer maneira.
Corei um bocado e olhei para a estrada. Vi que os carros começavam a parar a menos de 7 metros de nós. Devia ter havido um acidente mais à frente, algo que embrulhava logo o trânsito nas estradas. Os curiosos gostavam de abrandar para ver os acidentes.
- Houve um acidente lá à frente. – Comentou Christopher revelando as minhas suspeitas. – E parece que é grave.
- Como é que sabes? – Perguntei colocando-me ainda mais direita e tentando ver alguma coisa. Mas só conseguia ver a fila de carros de todas as cores. Nem sequer sabia onde começava a fila. – Consegues ver daqui?
- Consigo. – Disse ele sorrindo. – Mas creio que ainda esteja longe para tu veres.
- Isso é sempre bom. – Comentei baixinho mas sabia que ele ouvira-me. – Mas o que é que aconteceu?
- Vais ter de esperar e ver pelos teus próprios olhos. – Disse Christopher encostando-se à cadeira e olhando para mim.
- Isso não vale.
- Por acaso até vale. – Disse ele cruzando os braços. – Eu sou um vampiro e tu uma humana. Como estou protegido por um carro, posso dar-me ao luxo de utilizar as minhas super técnicas.
- Continuo a dizer que não vale. – Resmunguei cruzando as pernas no meu bando e colocando-me mais à vontade. – Quais são as outras técnicas?
- Tirando a super-visão e a velocidade? – Acenei com a cabeça. – O olfacto apurado e o facto de voarmos.
- Vocês voam? – Perguntei apática. – Voam de que maneira? Do género de super-heróis e companhia?
- Podes dizer que sim. – Respondeu ele dando uma gargalhada. – Só não tenho uma capa e collants. Creio que não dariam muito jeito quando voamos.
Ri-me com ele durante alguns segundos. Começava a imaginar Andy num collants azuis e com uma capa vermelha.
- Devia ser algo mesmo hilariante. – Comentei para mim ainda com a imagem na cabeça.
- Queres conduzir? – Perguntou ele esticando os braços como se se estivesse a espreguiçar. – Preciso de descansar um bocadinho.
- Pensei que os vampiros não se cansavam. – Disse enquanto descruzava as pernas e despedia o seu casaco.
- Experimenta ficar muito tempo na mesma posição. – Disse ele retirando o cinto de segurança. – Até os vampiros se cansam.
Fomos bastante rápidos a trocar de lugar apesar de estarmos praticamente parados no trânsito e não estarmos a incomodar ninguém. Assim que me sentei tive que colocar o meu banco quase todo para a frente. Não havia dúvidas de que Christopher era bastante alto. Ajeitei as minhas coisas, pondo-as como gostava mais e esperei, olhando para o carro da frente.
Uma criança de cabelos louros brincava com os seu bonecos no banco de trás. Olhou para mim durante uns segundos, sorrindo, e depois voltou-se para a frente como que envergonhada.
- Hum!? – Disse Christopher também olhando para a frente mas não para a criança ou para o carro, mas para o horizonte, onde tudo estava parado.
- O que foi? – Perguntei curiosa.
- Creio que daqui a nada recomeçaremos a andar. – Respondeu ele sorrindo e encostando-se ao meu banco, deitando-o.
- Confortável? – Perguntei sarcasticamente ao ver a sua posição confortável.
- Bastante. Acorda-me quando estivermos em Londres.
Sorri acenando com a cabeça, sabendo que ele me estava a observar. Conseguia sentir os seus olhos cravados em mim, avaliando-me, analisando-me, como fazia sempre. Um sentimento ao mesmo tempo agradável e arrepiante.
- Olha, tinhas razão. – Comentei quando os carros começaram a avançar lentamente pelo alcatrão.
- Eu sabia! – Disse ele e senti um sorriso.
- Ainda não te perguntei umas coisas. Espero que não te importes. – Disse começando a avançar com o meu carro azul. Íamos devagar.
- Claro que não. Pergunta o que quiseres. Creio que a pior parte já se passou.
- Bom, aquilo que sabemos em relação a vampiros, quanto é verdade e quanto é mentira.
- Como assim?
- Tu sabes, crucifixos, caixões, morcegos, essas coisas. – Disse sentindo-me completamente ridícula.
- Pois bem, a história dos crucifixos tem alguma verdade. Alguns vampiros são “alérgicos” – e ele levantou as mãos para fazer as aspas – outros nem por isso.
- Algum de vocês é? – Perguntei rapidamente.
- Nem por isso. Richard gosta muito de crucifixos. – Respondeu ele num tom de voz pensativo. – Os caixões só fazem parte do quotidiano dos vampiros das histórias. Os morcegos são pura fantasia.
- E as estacas?
- Paralisam-nos mas não nos matam. – Respondeu Christopher, desta vez num tom desconfiado, sabendo perfeitamente onde queria chegar.
- O alho?
- A mim faria mal pois nunca gostei do seu cheiro. – Respondeu fazendo uma careta. – Aos outros não fará nada.
- Ena, os guionistas estão mesmo errados a vosso respeito. – Comentei sorrindo.
- Parece que sim.
- Mas… - Tentei encontrar a melhor maneira de perguntar aquilo, de não querer criar mais imagens estranhas na minha mente. Sem sucesso, claro. - … Como é que vocês, tu sabes, morrem?
- A única forma de matar um vampiro é arrancando-lhe a cabeça. - Respondeu ele num tom carregado. De certo que não gostava de falar daquilo. – Após a decapitação, é enterrado o corpo e a cabeça em separado.
Arrepiei-me com a ideia de Christopher decapitado. Abanei a cabeça e as imagens foram esquecidas. É algo demasiado macabro para pensar enquanto se conduz.
- Isso é realmente violento. – Pronunciei, tentando manter uma voz curiosa e não assustada. – Pensei que bastava água benta.
- Isso também não faz nada. – Disse ele e a sua voz estava de volta à normalidade. Arrisquei lançar-lhe um olhar. Estava a olhar para o tecto do carro, sorrindo. – Mais alguma pergunta?
- E a luz do dia? Vocês não evaporam?
- Se ficarmos demasiado tempo ao sol, ficamos fracos. Uma outra maneira de nos matar. – Respondeu descontraidamente. – Conseguimos andar quase metade do dia ao sol, mas como Inglaterra tem um tempo sempre chuvoso, nunca é muito perigoso.
- Depreendo que Londres será uma maravilha. – Comentei rindo.
- Sim, Londres está sempre carregada de nuvens. Não há perigo de ser atingindo por um raio de sol.
Comecei a vislumbrar algo conhecido no horizonte. Prédio e confusão. Londres no seu melhor. Começava a sentir um certo entusiasmo por estar a chegar à minha cidade. E por estar a chegar a casa.
“Casa!” pensei suspirando fundo quando me lembrei dos meus pais.
- O que foi? – Perguntou Christopher sentando-se direito no banco e olhando-me preocupado.
- Casa! Ainda tenho de ir a casa. – Respondi voltando a suspirar.
- E vamos a tua casa. Fica lá uma noite se quiseres.
- E Boris? Não vai sentir o meu cheiro até casa? – Perguntei subitamente assustada quando me lembrei da razão pela qual estava a ir para Londres e pela qual ia para casa dos McKevin.
- Não te preocupes. Eu fico de vigia. Creio que ele ainda nem se quer deu pela tua partida de Kingston e como Andy ainda não me deu notícias, a tua avó está bem.
- Espero que tenhas razão. Estou a confiar em ti. – Disse olhando-o profundamente nos olhos. Ele estremeceu, algo completamente novo.

Cheguei à rua de minha casa e apercebi-me que os poucos vizinhos que conhecia me acenavam. Corei imenso enquanto Christopher se ria. Era estranho estar na minha cidade com ele e mostrando-lhe praticamente onde morava. Segui a estrada até à garagem onde deixava o carro e esperei que o portão subisse.
- Foi uma viagem boa. – Comentou ele fingindo espreguiçar-se. – Tenho de admitir que conduzes bem.
- Que piada! – Disse sarcasticamente e ele riu-se.
Entrei pela garagem, estacionando no meu lugar fazendo poucas manobras e colocando o travão de mão para cima.
- Queres subir? – Perguntei corando e agradecendo o facto das luzes da garagem se terem apagado de repente.
- Sou um cavalheiro por isso vou levar as tuas malas para cima. – Disse ele da escuridão numa voz alegre. Voltei a corar bruscamente e apressei-me a sair do carro.
Ele foi até à minha bagageira e pegou nas minhas poucas malas, esperando por mim. Avançamos pela garagem até uma porta que dava acesso as escadas e subimos, ouvindo os nossos passos ecoando e alguém num andar acima a discutir.
Era muito estranho estar de volta a casa após tudo o que tinha acontecido em Kingston. Parecia que tinha estado fora durante um ano inteiro, e estar em casa significava mudança. Quase não conhecia aquelas escadas de pedra que teimavam em subir e subir, cansando todos. As portas de madeira pareciam diferentes apesar de saber que eram as mesmas. Havia algo diferente no meu prédio, como se tivesse mudado mais do que estava à espera. Contudo, tinha sido eu a mudar, a minha percepção das coisas tinha mudado num mês.
Alcançamos a minha porta e abri a mala. Mais uma vez, as chaves estavam no fundo da mala e toquei à campainha, esperando que a minha mãe, ou o meu pai estivessem em casa. Ouvi passos do outro lado e sorri quando o meu pai me abriu a porta, surpreso por me ver.
- Phoebs!? Chegaste cedo. – Disse ele abraçando-me fortemente. Ele estava a trabalhar pois tinha os óculos colocados e a gravata completamente desfeita. Ele olhou para Christopher e cumprimentou-o, deixando-nos entrar. – Deixa aí as malas.
Christopher colocou as malas no chão e seguindo-nos pelo corredor até à sala. Era como tinha pensado, o meu pai estava atrapalhado de trabalho. Papeis, livros e muitas pastas estavam espalhadas pela mesa de centro de vidro e o seu portátil estava em cima do sofá.
- A mãe? – Perguntei olhando pela casa, não a reconhecendo.
- Onde achas que ela está? – Perguntou o meu pai sentando-se no sofá e colocando o portátil em cima das suas pernas enquanto as estendia e as repousava na mesa de centro.
- Na galeria. – Respondi com um tom de óbvio. Ele acenou com a cabeça.
- Desculpem lá a desarrumação mas estou um pouco atrapalhado.
- Podemos ver. – Disse eu. – Bom, vou colocar as malas no quarto.
Passei por Christopher que estava encostado à ombreira da porta e fiz-lhe sinal para que me acompanhasse. Ele seguiu-me e praticamente correu para apanhar as minhas malas antes de mim. Olhei-o furiosa mas desviei-me para o meu quarto. Desta vez quase não cabia em mim de felicidade.
Entrar no meu quarto de Londres com Christopher era algo que tinha pensado várias vezes enquanto estava em Kingston. Ali ele podia ver quem eu realmente era. E parecia que ele sabia isso pois observava o quarto atentamente, com um sorriso estranho nos lábios.
- Como podes ver, o meu quarto é um bocado exagerado. – Disse timidamente enquanto ele colocava as malas em cima da minha cama alta.
- É muito tu. – Disse ele vendo os postais que tinha na parede. – Já estiveste em Paris?
- Nem por isso. – Respondi tristemente. – Esse postal foi a Laura que me enviou quando lá esteve com a sua família. Adorava lá ir.
Ele acenou com a cabeça e sorriu-me.
- E agora? Vais-te embora ou…?
- Tenho que ir. Mas… - Ele aproximou-se de mim lentamente, fazendo-me tremer dos pés à cabeça. – Antes de ir queria apenas…
- O quê? – Perguntei quando ele se aproximou ainda mais de mim, estando frente a frente, a poucos centímetros de mim. O meu coração alertou-me com um súbito disparo que podia jurar ouvir-se na sala.
- Despedir-me de ti.
Os seus braços abraçaram-me fortemente, apanhando-me completamente desprevenida e quase desmaiei com a aceleração imparável do meu coração. Era tão agradável estar assim, nos seus braços fortes, sabendo que estava completamente apaixonada por ele. Deixava-me de tal maneira vulnerável que se ele me pedisse para me atirar da janela, eu atirar-me-ia por ele.
As suas mãos estavam a agarrar-me os braços e os seus olhos brilhantes olhavam-me intensamente. Vi-me espelhada neles e quase lhe consegui ver a “alma”. Ele devia estar a pensar o mesmo em relação a mim.
- Vejo-te amanhã ou agora vais fazer ronda? – Consegui perguntar com a voz rouca.
- Estás na cidade por isso, creio estares a salvo. Por enquanto. – Disse ele sorrindo-me. – Pode ser que me vejas amanhã.
- Isso era bom. – Comentei derretendo-me por completo quando ele sorriu ainda mais.
- Pois era.
Não sei como conseguir fazer aquilo mas quando me apercebi do que estava a fazer, senti os meus lábios nos seus, e ele foi apanhado de surpresa ao me ter atirado ao seu pescoço. Porém, ele não me afastou nem tentou lutar contra mim. Apenas me abraçava fortemente e beijava-me de volta, quase necessitado como eu. Tentava respirar calmamente enquanto me deixava hipnotizar pelo beijo mas quando suspirei, ele afastou-se um bocado de mim, o suficiente para colocar a sua testa encostada à minha e olhar-me profundamente.
- Desculpa… Eu não sei o que me deu. – Desculpei-me sentindo-me completamente idiota e envergonhada com o meu ataque mas no fundo, agradecida por o ter feito. Ele sorria docemente o que quase me fez quase beija-lo de novo.
- Para a próxima avisa-me antes de me atacares, está bem? – Brincou ele fazendo-me corar imenso.
Todavia, ele acariciou a minha face e colocou levemente os seus lábios nos meus, beijando-me rapidamente e afastando-se de mim, deixando-me completamente perdida. Saiu do meu quarto e ouviu-o despedir-se do meu pai e a porta bater.
Durante aqueles poucos segundos mal consegui respirar e mentalizar-me do que tinha acontecido, apenas tinha a leve sensação que tinha sido ele a beijar-me.
Tinha sido ele a beijar-me.
O meu coração ia rebentar de vez. Estava tão acelerado que pensei que ia explodir de um momento para o outro. Era impossível saber o que era ter um coração calmo e sem pressa. Ainda senti os seus lábios gelados nos meus e o seu sorriso estava, literalmente, cravo na minha mente. Nem sei quanto tempo permaneci quieta no mesmo lugar a repetir vezes sem conta o que tinha acontecido.
Acordei para a realidade num humor tão contagiante que decidi telefonar a Laura para a avisar que estava em Londres. As minhas mãos tremiam muito e a procura pelo meu telemóvel era uma aventura. Sorria da minha atrapalhação, envergonhada por me sentir uma criança. Mas lá o encontrei no fundo da mala e procurei o número de Laura.
- Estou?
- Laura, sou eu. A Phoebe.
- Phoebs!? Onde andas rapariga? – Perguntou ela num tom de voz autoritário.
- Estou em Londres. Acabei de chegar.
- A sério?
- Sim. Queria saber se estás livre esta tarde para nos encontrarmos.
- Claro que estou. – Respondeu ela imediatamente. – Onde queres-te encontrar?
- No sítio de sempre. Vou sair de casa agora, por isso…
- Dentro de mais ou menos 15 minutos estou lá. – Cortou ela alegremente. – Até já.
Nem tive tempo de lhe responder e já ouvia o bipe do outro lado. Sorri com o entusiasmo da minha amiga e atirei o telemóvel para dentro da mala, colocando-a ao ombro e saindo do meu quarto. Andei pelo corredor aos ziguezagues, suspirando quando entrei na sala. O meu pai observou-me por cima dos óculos com um ar desconfiado.
- Vais sair? – Perguntou ele quando lhe dei um beijo na cara.
- Vou ter com a Laura. – Respondi sorrindo-lhe.
- Estás muito bem-disposta. Aconteceu alguma coisa? – Perguntou o meu pai curioso.
- Apenas estou adorar o meu dia. – Respondi-lhe saindo da sala. Mas ele chamou-me e eu espreitei pela porta, vendo-o muito sério porém muito animado.
- Isso tem alguma coisa a ver com a viagem que fizeste com o Christopher? – Perguntou ele naquele seu tom de advogado que ele tinha com os clientes mas eu notei que era uma pergunta mais rasteira.
- Não sei. – Respondi encolhendo os ombros e encaminhando-me para a porta de saída.
- Phoebe. – Chamou o meu pai da sala e eu parei com a mão na maçaneta. – Não te esqueças de ir ver a tua mãe à galeria.
- Está bem. Até logo pai. – Gritei da porta saindo finalmente.
Andar na minha rua era novamente estranho. Mas com a minha mente distante quase perdia o autocarro se não fosse o simpático motorista a chamar-me. Tentei concentrar-me nas imensas ruas imersas em cores e formas. Consegui perceber que a cidade estava constantemente a mudar. Havia uma rua que estava cortada para obras, outra que tinha aberto e uma ou outra loja nova. Perguntava-me se já existiriam e só tinha notado agora ou se eram mesmo novas. Mas a cidade mantinha-se igual à Londres de à poucos tempos atrás. Sempre a mesma intemporal Londres que era tão bonita que fazia doer à alma. O tempo era sempre monótono mas uma pessoa rapidamente se habituava a ele. As ruas sempre atulhadas de gente a irem uma contra a outra era algo que, quando não se tinha, dava-se pela falta. Os polícias armados mantinham a segurança nas ruas e os mendigos quase me davam vontade de chorar. Um homem ou outro surgia de vez em quando, muito parecido a Christopher e o meu coração parava por segundos, até notar que não era ele. Começava a questionar-me se aquelas pessoas saberiam da existência dos vampiros e dos lobisomens. Possivelmente, vários deles eram vampiros e lobisomens. Temi só de me lembrar dos olhos sangrentos deles.
Sai na minha paragem e apressei-me até ao café onde costumava me encontrar com Laura e Mark quando estávamos nas aulas. Estava cheio de gente e foi quase uma aventura arranjar lugar para mim. Havia vários casalinhos novos, mães com os seus filhos, colegas a estudarem muito concentrados, outros simplesmente a ouvirem música enquanto comiam. Lamentei não ter trazido o meu leitor de música para ouvir enquanto esperava por Laura. Mas ao mesmo tempo não necessitava dele. Voltei atrás no tempo e recordei os últimos minutos com Christopher. Devo ter suspirado como uma apaixonada (que é o que sou) pois uma rapariga olhou para mim confusa e riu-se de seguida. Tinha a noção de irradiar felicidade e cada pessoa que passava por mim sorria-me. A empregada que me serviu o café estava cabisbaixa mas assim que eu lhe agradeci e lhe sorri pareceu outra, sorridente e bem-disposta. O amor era algo contagioso.
- Phoebs! – Gritou Laura da porta do café, acenando enquanto se apressava ao meu encontro. Mark vinha atrás dela, sorridente e notei que estava mais musculado. Como era possível ele ter mudado tanto num mês?
- Laura, Mark! – Levantei-me para os abraçar fortemente. Mark quase me estrangulou e levantou-me do chão. Era óptimo vê-los tão felizes. – Oh Laura, desculpa-me tanto ter sido uma completa idiota contigo neste mês.
- Phoebe… - Cortou ela sorridente enquanto tirava o casaco e se sentava com Mark a seu lado. – Já te disse que não faz mal. Eu entendo.
- Mesmo assim sinto-me mal.
- Não sintas. Também tive ai um tempo ocupada. Olha! – Laura esticou-me a mão esquerda e notei algo brilhar fortemente no seu dedo anelar. Olhei de boca aberta para ela e para Mark e ambos estavam corados e tímidos.
- Estás a gozar? Pediste-a em casamento? – Perguntei a Mark e ele acenou a cabeça. – Isso é maravilhoso! Parabéns.
- Obrigado. – Disse Laura olhando para o seu anel de ouro com uma enorme pedra. – Nem queria acreditar. Ele pediu-me em casamento quando voltámos de Kingston.
- Porquê que não me disseste isso antes? – Perguntei indignada.
- Tinhas outras coisas em que pensar e eu queria ver a tua reacção. – Respondeu ela dando a mão ao seu novo noivo.
- Nem acredito que te vais casar. – Comentei colocando uma mão na cabeça. – Sempre soube que ias ser a primeira.
- Nem eu acredito! – Ela olhou apaixonadamente para Mark e deu-lhe um beijo na cara.
- Então conta coisas, miúda. – Disse Mark sorrindo-me abertamente. – Como está a tua família?
- Estão melhor. O meu pai já está a trabalhar num caso novo. A minha mãe contínua ocupada com a galeria. E a minha avó ficou em Kingston. Ela agora anda ajudar a Mrs. Amelie no mercado. – Respondi suspirando à medida que me lembrava do tempo a passar.
- É normal! – Disse ele seriamente. Lembrei-me que ele também tinha perdido o seu avô quando era uma criança e que sabia perfeitamente bem como era essa dor. – Mas agora está tudo bem, não é?
A conversa girou em torno da minha família a maior parte do tempo. Estava agradecida por estar na fase do falar do meu avô com saudade. Laura e Mark estavam sempre atentos para o caso de não aguentar a conversa séria que estávamos a ter.
Após ter ignorado os meus amigos, devia-lhes tudo. Contei-lhes tudo o que sentira e o que ainda sentia, omitindo algumas partes menos importantes. Era incrível ver que eles continuavam a preocupar-se a sério comigo. Laura tinha passado metade da conversa sobre a morte do meu avô de mãos dadas comigo, olhando-me tristemente mas sempre sorridente. Mark tentava aliviar as coisas com uma piada ou outra que, para minha surpresa, tiveram efeito.
- E os McKevin? – Perguntou Laura e vi-a olhar-me desconfiada. – Disseste-me que me contavas tudo depois.
- Disse? – Perguntei tentando não me lembrar da última vez que falara com Laura ao telefone. Ela tinha um certo olho para descobrir quem estava apaixonado por quem. De certeza que já sabia que havia qualquer coisa entre mim e Christopher. Mas, será que se pode chamar a um beijo qualquer coisa?
- Sim, disseste. Conta-me tudo. – Pediu ela entusiasmada, endireitando-se na cadeira e olhando-me de tal maneira que me senti exposta. – Vá, desembucha.
- Ok. – Rendi-me suspirando e baixando a cabeça para que eles não me vissem a corar brutalmente assim que falava neles. – Eles são muito simpáticos e ajudaram-me imenso.
- Phoebe… - Chamou Laura baixinho e olhei para ela. – Passa à frente no genérico. Diz-me, gostas do tal Christian, Christopher, ou como é que ele se chama?
- Ele chama-se Christopher, Laura. – Respondi corando. – E sim, creio que gosto dele.
- Estás a ver? – Perguntou Laura a Mark num tom de teimosia e esticou-lhe a mão. Olhei-os confusa.
- Pronto, está bem, ganhaste. – Disse Mark retirando uma nota do bolso das calças e entregando-a a Laura. Fiquei ainda mais confusa.
- O que é que se passa?
- Eu e Laura fizemos uma aposta. Quando lhe falaste dos novos vizinhos ela disse-me que descreveste bastante um deles e que ia haver qualquer coisa no ar. – Respondeu Mark encolhendo os ombros. – Fizemos uma aposta para ver se te apaixonavas ou não por ele. Eu apostei que não.
Olhei para eles os dois, espantada. Aquilo devia ter-me chateado mas estava bastante animada para achar aquele acto errado. Pelo contrário, era óptimo ver que Laura conhecia-me bem. Normalmente, ela só fazia apostas quando acreditava seriamente que algo ia acontecer. Este pensamento fez-me corar de novo.
- Então, mas continua. Vocês já…?
- Laura, por favor. – Cortei imediatamente envergonhada. – Importaste de não falares disso?
- Pronto, desculpa. Mas diz-me uma coisa, já houve beijo? – Perguntou ela baixinho, inclinando-se para mim e bastante curiosa. Corei ainda mais, estando completamente vermelha e desviei o olhar dela, sorrindo para mim quando me lembrei dos seus lábios nos meus. Esta reacção respondeu-lhe e ela endireitou-se. – Oh, já houve beijo. Como foi?
- Tu és inacreditável, sabes? – Disse sorrindo-lhe timidamente. Ela riu-se numa gargalhada baixa e vi que Mark se tentava conter.
- Já me conheces. – Laura encolheu os ombros e pegou no seu batido e bebeu.
- Ele é completamente diferente daquilo que estamos à espera. – Comentei brincando com a colher do meu café. – Pensamos que ele é uma coisa mas depois, ele prova-te o contrário. Há mais nele do que julgas.
- Ok, a minha melhor amiga está mesmo apaixonada. – Comentou Laura suspirando e olhando à volta como se não acreditasse que era eu que ali estava.
- Laura, a Phoebs também é humana. Julgas que somos só nós que nos apaixonamos? – Perguntou-lhe Mark e agradeci-lhe silenciosamente com o olhar por ele me ter defendido. – Também tem direito.
- Apenas digo que é estranho ver-te assim corada, tímida e com os olhos a brilharem de tal forma que eras capaz de causar um acidente. – Disse Laura e eu ri-me numa gargalha tão alta que metade do café olhou para mim. – Não me lembro de te ver assim nos 15 anos de amizade que temos.
- Porque nunca me senti assim. – Comentei olhando pela janela grande do café e distanciando a minha mente da confusão à minha mesa. – Cada vez que o vejo é como se o meu coração explodisse de felicidade. Cada vez que ele olha para mim sinto-me a flutuar. – Olhei para Laura seriamente. – É assim que te sentes quando estás com o Mark?
Laura olhou para o seu noivo e sorriu-lhe docemente. Talvez o mesmo tipo de sorriso que entrego a Christopher sem me aperceber. Eles os dois eram a prova viva que o amor verdadeiro ainda existe.
- Sim. É assim que me sinto.
Mark deu um beijo na testa de Laura e sorri ao ver a cena romântica. Poderia ter um momento assim com Christopher. Poderia ter até mais com ele. Sabia perfeitamente bem que ele não era pessoa de se deixar ficar por um beijo na testa e um abraço. Ele levava sempre tudo ao limite. Assim como me levar a miradouros, a caminhos longos até minha casa, a esconder-me nas sombras somente para me implorar para voltar para Londres. Quem dera o primeiro beijo tinha sido eu, atacando-o logo. Mas ele tinha-me beijado uma segunda vez, surpreendendo-me com a sua atitude. Ele pedira-me para a próxima avisá-lo. Isso queria dizer que ia haver uma segunda vez, pelo menos da minha parte. Comecei a desejar que o próximo dia chegasse o mais depressa possível.
Ficámos no café até a noite começar a cair. Tínhamos perdido a noção do tempo com as nossas conversas. Era tão bom voltar a estar com os meus amigos. Parecia que tudo o que tinha acontecido no passado recente não tinha passado de puros pesadelos por esquecer. Claro que não lhes tinha contado a história dos lobisomens que andavam atrás de mim nem do vampiro por quem me apaixonara ou da sua família vampírica com a qual ia morar. Para eles, Christopher era um rapaz típico que adorava ser antiquado.
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Próximo Capítulo:
Em Família

Capítulo 17: De Caminho Para Londres

O - PE R S E G U I D O R - D A - N O I T E

Último Paragráfo (Capítulo 16: O Pedido de Christopher)

"Quase cai da cama quando a voz da minha avó me chamou para ir jantar. Estava tão submersa nos meus pensamentos que fechara a minha mente ao exterior. Fechei a mala a correr, tendo dificuldades uma vez que não estava bem arrumada, e desci para comer."

De Caminho Para Londres

Acordei sobressaltada com o despertador. Deixei-me ficar mais uns minutos deitada, contemplando os sons que iam para além da música irritante do relógio. Por estranho que parecesse, não me estava a irritar. Havia outros sons que compunham uma estranha melodia no meu quarto. Um pássaro a cantar à minha janela, o vento assobiar levemente, o meu telemóvel a vibrar na mesa-de-cabeceira, a campainha a tocar.
A campainha a tocar.
Levantei-me num ápice e corri ao telemóvel que vibrava freneticamente. Olhei para o visor e vi um número desconhecido e já não fui a tempo de atender. Ignorei-o e voltei a ouvir a campainha. Fui até à janela do meu quarto e a imagem de Christopher quase me parou o coração. Ele estava ali, a tocar à minha porta com aquele ar de anjo que devia ser proibido.
Abri a porta do meu quarto e ouvi a minha avó saúda-lo alegremente. Ainda bem que ela acordava sempre cedo. De repente, passos pesados começaram a subir as escadas. Esfreguei os olhos até conseguir tê-los bem abertos e conseguir ver quem era. Corri até à casa de banho para que Christopher não me visse nem despenteada, nem de pijama típico de criança. Porém, tinha a certeza absoluta que ele me vira e que se rira baixinho com a minha atrapalhação. Ignorei.
Quando me olhei ao espelho quase soltei um grito de susto. Estava completamente desengonçada. Os meus cabelos pareciam que não eram penteados há mais de uma semana. Escovei-o com tanta força que chorava baixinho de dores. Lavei os dentes e a cara o mais depressa que conseguia. Antes de sair da casa de banho vi um roube pendurado à porta e vesti-o somente para me tapar. Aquele pijama era tão infantil que até corei. Assim, estava mais apresentável.
Sai da casa de banho e caminhei até ao meu quarto, dizendo que estava tudo bem. Estranhamente, estava muito nervosa. Bastante. Algo que já devia estar habituada. Suspirei uma, duas, três vezes. Lembrei-me que era a primeira vez que Christopher estava no meu quarto. E este nem sequer estava arrumado. Quase me apetecia pô-lo na rua para arrumar as coisas.
- Bom dia! – Disse ele mal abri a porta e o vi sentado ao pé da janela. Somente o meu lugar favorito.
- Bom dia… o que fazes aqui a esta hora? – Perguntei apressando-me a puxar a roupa da cama para cima atrapalhadamente. Claro que enquanto fazia isto, a roupa que estava aos pés da cama saltaram.
- Vim-te buscar! – Respondeu ele confuso. – Vamos para Londres certo?
- Certo! Mas como podes ver, ainda não estou vestida nem arranjada. – Disse apontando para mim. Ele pareceu acordar para a realidade e sorriu. – E ainda não tomei o pequeno-almoço nem coloquei as coisas no carro.
- Isso deixa comigo. Veste-te e vai ter comigo ao carro. – Disse ele sorrindo e levantando-se devagar do seu lugar.
- Vamos no meu certo? É que não posso deixar cá o carro. – Disse pegando nalgumas peças de roupa que estavam no chão.
- Sim, vamos no teu. Até porque Andy levou o meu carro.
- Ok, então… dás-me licença? – Perguntei, apontando para a porta do quarto enquanto segurava na minha roupa. Claro que assim que vi ele olhar para as minhas mãos e rir é que me apercebi que segurava no meu soutien cor-de-rosa. Coloquei-o atrás das minhas costas corando bruscamente.
- Oh, Desculpa!
Ele pegou na mala que já estava à porta e passou por mim atrapalhado e sorridente, o que me fez quase desmaiar quando a porta se fechou atrás dele.
Procurei uma roupa confortável apressadamente e vestia-a o mais depressa que pude. Calcei-me e fiz a cama apenas ajeitando a colcha e colocando os almofadões em cima dela. Olhei à volta. Estava arrumado excepto uma ou outra peça de roupa que me faltava arrumar, estava limpo e iluminado.
Ouvi a porta de um carro bater e fui até à janela. Vi-o a fechar o meu carro e dirigir-se ao alpendre. Mas antes, ele olhou para a minha janela e apanhou-me desprevenida. Sorriu-me e eu afastei-me com o coração aos pulos. Tentei respirar com calma.
Os seus passos começaram a subir as minhas escadas e ele bateu levemente à porta.
- Já estás pronta? – Perguntou ele espreitando pela porta.
- Estou. Vamos descer?
Ele abriu a porta por completo e deixou-me passar. Seguiu-me até à cozinha onde a minha avó estava sentada a tomar o pequeno-almoço. Estiquei-me para retirar uma tigela mas a mão de Christopher tocou-me no braço.
- Vou-te levar a tomar o pequeno-almoço fora. – Disse ele e eu olhei para a minha avó interrogando-a se devia ir ou não ao que ela acenou com a cabeça. – Anda!
A minha avó levantou-se e abriu os braços para me abraçar fortemente.
- Boa viagem Phoebs. Telefona-me quando chegares a casa está bem? – Disse ela com um tom preocupado e triste ao mesmo tempo. Tinha os olhos cheios de lágrimas. Ia ficar sozinha. Era essa a razão pela qual eu queria ficar em Kingston.
- Eu telefono avó. Não te preocupes. Adoro-te. – Disse-lhe ao ouvido dando-lhe um beijo na testa.
- Adeus Ethel. – Despediu-se Christopher também com um abraço.
- Toma conta dela. – Disse-lhe a minha avó ao ouvido de uma forma nada secreta, de tal maneira que conseguia ouvir. Corei bruscamente. Christopher sorriu e acenou com a cabeça.
- Não se preocupe que ela fica em boas mãos. – Quase rebentei de felicidade ao ouvir Christopher prometer tal tarefa. Nada desejava a não ser estar nas suas mãos.
- Boa viagem aos dois.
Saímos de minha casa e Christopher abriu a porta do pendura para eu entrar.
- Não posso ir a conduzir? – Perguntei sentando-me e apertando o cinto de segurança antes que fosse tarde demais. – É desta que voo.
- Depois trocamos. Mas agora vou-te levar a comer. – Disse ele antes de fechar a minha porta e entrar. – Confortável?
- Claro. Porquê?
Ele sorriu e o meu carro arrancou a uma velocidade que nunca pensei que fosse possível. Quase tão rápido como os carros de corrida que o meu pai tanto gostava de ver na televisão. Aqueles carros que se pararem fazem o pino e depois é que caiem ao chão.
Quando abrandámos consegui endireitar-me e Christopher ria-se olhando para mim.
- Muito engraçado. – Resmunguei abrindo o porta-luvas e abrindo a minha caixa dos CD’s. – Portanto, o que queres ouvir?
- O que tens ai?
- Muita coisa. – Respondi sorrindo timidamente enquanto começava a trocar os CD’s. Encontrei um CD que já não ouvia algum tempo e que era perfeito para viagens. – Gostas de U2?
- Claro. É impossível não gostar deles.
Sorri e retirei um dos CD’s da banda que tinha para o carro e coloquei-o no rádio. A música começou e aumentei um bocado o volume, somente para se ouvir como música de fundo e para não ser abafada pelo som do carro em andamento. Senti-me muito melhor quando a voz do vocalista começou e notei que até Christopher sabia as letras. Pelo menos assim não se notava a minha pouca voz. Estavamos descontraídos. Isso era bom, um bom sinal.
- Onde vamos comer? – Perguntei olhando pelo vidro.
- Já vês.
Chegámos à aldeia deserta exceptuando uma ou outra pessoa e paramos o carro à frente do mesmo café onde tínhamos estado juntos pela primeira vez. O meu coração encheu-se de felicidade ao notar que ele se recordava, apesar de não ser difícil. Ele abriu-me a porta e eu segui-o até ao café. Era tal e qual a primeira vez. Senti a minha cara arder e devia estar completamente vermelha.
- Então? O que achaste da minha surpresa? – Perguntou ele quando nos sentámos.
- Bom, creio que adorar não é suficiente. – Respondi aceitando a lista que o empregado careca - o mesmo - nos deu. – Eu vou querer uma torrada e um galão, se faz favor.
- Eu já comi. – Disse Christopher entregando o menu ao empregando e sorrindo-lhe. Observei-o atentamente enquanto ele baixava o olhar e se deparava com o meu. – O que foi?
- Já comeste? – Perguntei-lhe desconfiada levantando um sobrolho. – Eu interrogo-me o que foi o teu pequeno-almoço?
- Podemos falar disso depois? Prometo contar-te tudo mas não aqui. – Disse ele olhando á nossa volta um pouco desconfortável.
- Prometes? Tudo o que quiser saber?
- Prometo.
O empregado trouxe a minha torrada e o meu galão. Tinha o estômago apertado sem saber porquê e a comida demorava muito tempo a chegar lá a baixo, mas comi sempre com os olhos de Christopher em mim. Voltei a sentir-me inibida. Pouco falamos, mas sempre que o fazíamos, perguntávamos coisas que ainda desconhecíamos um do outro. Uma das suas muitas perguntas estava relacionada com os meus amigos; Laura e Mark. Ele tinha notado a sua presença no funeral do meu avô. Não percebi o porquê de ele querer saber tanto sobre eles, mas não o interroguei. Falei-lhe de como tinha conhecido Martha no 4º ano, de como crescemos juntas, de como estive lá para ela quando os seus pais de divorciaram, de como fiz todos os meus possíveis para que ela fosse jantar com Mark. Enfim, falei-lhe de tudo o que era possível sempre alegre e bem-disposta.
- Já acabaste o teu pequeno-almoço? – Perguntou-me ele quando pousei o copo vazio e me encostava à cadeira acenando com a cabeça. – Pronta para a viagem?
- Prontíssima. – Respondi sorrindo-lhe alegremente. Sentia-me cheia e sem vontade nenhuma de partir dali, mas o pensamento de estar com ele dentro do carro era tentador. Porém, levantei-me e vesti o casaco, seguindo-o pelo café e voltando a entrar no meu carro azul com a música dos U2.
Chegámos à auto-estrada sempre falando na minha vida em Londres e da minha infância. Era estranho falar do meu avô assim, com a saudade a crescer e a dor a diminuir. Martha tinha razão quando dizia que depois era mais fácil. Percebia o que ela queria dizer com isso. Creio ter chegado à fase do “falar com saudade”. Pelo menos Christopher parecia ter notado que estava mais aberta em relação ao assunto. Penso que seja por estar com ele. Era sempre mais fácil falar do meu avô quando ele estava perto. A dor no meu peito parecia apenas uma picada pequena, mas a respiração de vez em quando faltava quando me lembrava da sua voz a chamar por mim. “Phoebe Anne”. Mas mesmo assim conseguia contar-lhe as minhas peripécias de quando era pequena e ri-me envergonhada de várias coisas.
- Mas chega de falar de mim. – Disse olhando para a estrada. – Prometeste-me algo.
- Pois prometi. – Respondeu ele olhando-me de relance. – O que queres saber?
- Não sei o que perguntar primeiro. – Retorqui com a minha mente cheia de perguntas incontáveis. – Deixa cá ver…
Christopher esperou, olhando para a estrada enquanto eu colocava a minha cabeça em ordem.
- Portanto, tens 147 anos. És um vampiro. Porém, voltou a questionar-me em relação ao que comes. – Disse a medo vendo a sua expressão. Ele conduzia sem tirar os olhos da estrada mas notei que sorria.
- Sangue retirado dos frigoríficos dos hospitais. Conheço uma pessoa que trabalha lá, um vampiro mais precisamente, que nós arranja a nossa comida.
A minha boca abriu estupefacta e virei-a para a janela assim que ele se riu e o vi a olhar para mim pelo canto do olho.
- Que mais queres saber? – Perguntou ele calmamente.
- Muito bem… - Disse abanando a cabeça e voltando à minha lista de perguntas. – Que tipo de sangue preferes?
“Estúpida!” pensei comigo mesma. Quer raio de pergunta era aquela?
Christopher deu uma gargalhada e eu afundei-me no acento do carro.
- Normalmente bebo ORH+. Mas qualquer tipo de sangue é suficiente para nos saciar. – Respondeu ele tão sinceramente que voltei a deixar cair o queixo. – Qual é o teu tipo sanguíneo?
- A+. – Respondi quase numa pergunta do que numa afirmação. Ele acenou com a cabeça. – E os teus irmãos? Quais são os deles?
- Temo que tenhas alguns problemas com Andy. Ele prefere A+. Martha prefere os negativos. – Respondeu ele. – Tinha de ser diferente.
- Qualquer?
- Sim, qualquer.
- Ena… que variedade. – Comentei sentindo um sorriso nos meus lábios. – Fala-me do teu pai vampiro.
- O que queres saber dele?
- Como é que ele é, quantos anos tem, tu sabes, as perguntas base. – Disse encolhendo os ombros. O que se devia perguntar sobre um vampiro? A sua cor favorita?
- Richard tem fisicamente 50 anos mas na realidade tem 418. Está bastante bem conservado para a sua idade. – Disse ele num riso que dava a entender ter história por trás. – É um cientista maluco. Adora ver as coisas a multiplicarem-se. Principalmente se forem células dos órgãos humanos.
Tentei imaginar um homem de 50 anos do género de Einstein a ver órgãos humanos. A minha mente partiu daí para uma imagem mais sombria onde ele acabava por comer o órgão. Estremeci e abanei a cabeça, abrindo a boca.
- E antes que perguntes… - Disse ele levantando um dedo, adivinhando os meus pensamentos. – Ele não morde em pessoas. Foi com ele que aprendemos a não magoar as pessoas e a controlar a sede. E o tipo de sangue que ele prefere é o mesmo que o meu.
- Quer dizer que vocês são como são por causa dele? – Perguntei curiosa.
- Mais ou menos. Também sabemos que quem faz isso não tem piedade nenhuma. Preferimos dar-nos com humanos do que com vampiros.
- Porquê?
- Porque vocês têm sentimentos. É algo complicado de explicar.
- Tenta! – Incentivei.
- Muito bem – Ele ajeitou-se no banco e eu esperei. – Tenta falar com alguém que só pensa numa só coisa. Neste caso um vampiro sem uma educação como nós só estaria a pensar em sangue e pescoços. Algo que a nós faz uma espécie de confusão.
- Eu entendo. – Respondi lembrando-me de Laura. – Vê-se que ainda não conheceste a minha melhor amiga. Quando ela fala do namorado é como se não houvesse mais nada no mundo.
- É mais ou menos isso. – Disse ele rindo.
- Mas já mordeste alguém? – Perguntei a medo e quase num murmúrio. Tinha medo da sua reacção à minha pergunta. Se ele tivesse um passado violento eu queria saber.
- Há muito tempo. – Respondeu ele seriamente e sem o brilho nos olhos negros. Um autêntico vampiro. – Logo que fomos transformados. Não me consegui controlar. Depois de ver o que tinha feito não me consegui perdoar. Até agora aquela imagem mantém-se na minha mente e é como um aviso.
- Como foi?
- A nossa transformação? Bem, após Boris nos ter atacado, ficamos os três demasiado feridos. Andy e Martha estavam praticamente mortos. Até que Richard nos encontrou, ele disse-nos ter-lhe cheirado a sangue fresco e que decidira averiguar. Assim que nos viu, não conseguiu que morrêssemos.
Christopher ficou calado, olhando pensativamente para a estrada. Eu olhei pela janela vendo as árvores passarem por mim rapidamente. Um nó na minha garganta formou-se.
- Ele deu-nos o seu sangue a beber, quase que o destruiu, e depois ficou connosco durante todo o processo.
- Todo o processo?! – Comentei numa pergunta surpresa. – Pensei que era só morder e já está.
- Não. Os filmes e livros de vampiros enganam muito. – Disse ele sorrindo. O vampiro desapareceu dando lugar a um “humano” alegre. – Quando fomos mordidos por um vampiro, temos pelo menos 4 horas antes do seu veneno nos matar. Se antes dessas 4 horas nos for dada, nem que seja uma gota de sangue de vampiro, a transformação começa.
- Só 4 horas?
- Sim, só 4 horas. A transformação é dolorosa. Passamos mais 8 horas a sofrer, o sangue queima as nossas veias, as nossas memórias são dolorosas. Mas depois termina. E quando acordamos começa outra tortura.
Arrepiei-me com as imagens cinzentas que o meu cérebro criou através da sua discrição. Só o pensamento de o ver a sofrer daquela maneira fez-me querer abraça-lo e dizer-lhe que estava tudo bem.
- Quando acordamos temos tanta sede que quase pedimos a morte. Qualquer pessoa que nos apareça à frente é morta. É algo que não conseguimos controlar. Somente quando a sede está saciada é que conseguimos raciocinar e controlar um pouco a nossa mente.
- Foi muito difícil para ti e para os teus irmãos? – Perguntei quase num sussurro que não lhe passou despercebido. Estava a olhar em frente, vendo a estrada à minha frente a aumentar e aumentar. Estava assustadíssima com a sua história.
- Durante algum tempo. Creio que Martha foi quem sofreu mais. – Respondeu ele apertando o volante com tanta força que quase temi que ele o partisse.
- Porquê?
- É uma história que é melhor ser ela a contar-te.
- Está bem.
O silêncio instalou-se por um breve bocado. Somente a música mantinha um ritmo igual, batida após batida, sem sofrer estremecimentos como eu. Tentava manter a mente aberta, não imaginar aqueles três vampiros que tinha conhecido parecia anos, a matar pessoas e a beber sangue. Mas a mente prega-nos partidas e rapidamente vislumbrei Andy a atacar-me quando me visse, sentindo o meu cheiro a A+.
- Estás bem? – Perguntou Christopher preocupado.
- É… demasiada coisa para assimilar de uma só vez. – Respondi baixando a cabeça, e engolindo em seco.
- Eu sei. Desculpa. – Pediu ele calmamente colocando uma das suas gélidas mãos na minha. – Não te devia ter contado tanta coisa.
- Não! – Cortei e ele olhou para mim confuso. – Ainda bem que contaste. Prefiro saber do que estar na escuridão.
Forcei um sorriso que rapidamente se transformou num verdadeiro quando notei que os seus olhos estavam brilhantes. A sua mão ainda estava na minha, o que me fez ainda sorrir mais. Estava maravilhada e assustada. Estava apaixonada e um tanto reticente. Será que amar um vampiro daquela maneira era contra algumas regras? E, será que a neta de um antigo caçador de Lobisomens podia amar um ser sobrenatural? Nem queria saber das respostas. Podia ouvir algo que não gostasse. Alguma pergunta poderia ser respondida de uma forma que me quebraria o coração.
Por isso suspirei fundo, e abstraindo dos meus pensamentos, enchendo-os com a música que passava e com a paisagem. Mas enchia-a mais com a mão de Christopher na minha enquanto caminhávamos rumo a Londres, ambos a abanar a cabeça com as guitarras dos U2.
Por instantes senti os olhos pesados e tentei mantê-los abertos, querendo aproveitar a viagem toda, até ao fim. Não queria dormir pois tinha medo de ter pesadelos com Lobisomens e vampiros acabados de transformar. Mas era mais forte que eu e os meus olhos cederam. Apenas senti algo quente a tapar o meu corpo e quase podia acertar ser o casaco de Christopher.

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Próximo Capítulo:
O Beijo