O - PE R S E G U I D O R - D A - N O I T E
Último Paragráfo (Capítulo 17: De Caminho Para Londres)"Por instantes senti os olhos pesados e tentei mantê-los abertos, querendo aproveitar a viagem toda, até ao fim. Não queria dormir pois tinha medo de ter pesadelos com Lobisomens e vampiros acabados de transformar. Mas era mais forte que eu e os meus olhos cederam. Apenas senti algo quente a tapar o meu corpo e quase podia acertar ser o casaco de Christopher. "O BeijoAcordei sem saber quanto tempo tinha passado. Notei que a música já não era a mesma. Era uma banda mais calma, com uma voz feminina. Aquela banda que chamava nossa agora. Aquela que ambos gostávamos.
- Dormiste bem? – Perguntou a voz calma de Christopher no lugar do condutor.
Sentei-me direita, sinto as minhas costas estalarem enquanto esticava os braços e olhava à minha volta. Ainda estávamos na auto-estrada mas já deveríamos estar bastante perto de Londres. Alguma coisa caiu-me para o colo e as minhas dúvidas estavam esclarecidas. Era o casaco de Christopher que me tapava. Lá fora, o tráfico de carros começava a aumentar, um sinal para que Londres estava quase à mostra, e o dia começava a aquecer.
- Quanto tempo estive a dormir? – Perguntei com uma voz ainda sonolenta.
- Há coisa de uma hora. – Respondeu ele calmamente.
- Desculpa. Não queria ter adormecido quando estás a conduzir. – Desculpei-me sentindo-me gelada e vestindo o casaco dele.
- Não faz mal. Queria que descansasses de qualquer maneira.
Corei um bocado e olhei para a estrada. Vi que os carros começavam a parar a menos de 7 metros de nós. Devia ter havido um acidente mais à frente, algo que embrulhava logo o trânsito nas estradas. Os curiosos gostavam de abrandar para ver os acidentes.
- Houve um acidente lá à frente. – Comentou Christopher revelando as minhas suspeitas. – E parece que é grave.
- Como é que sabes? – Perguntei colocando-me ainda mais direita e tentando ver alguma coisa. Mas só conseguia ver a fila de carros de todas as cores. Nem sequer sabia onde começava a fila. – Consegues ver daqui?
- Consigo. – Disse ele sorrindo. – Mas creio que ainda esteja longe para tu veres.
- Isso é sempre bom. – Comentei baixinho mas sabia que ele ouvira-me. – Mas o que é que aconteceu?
- Vais ter de esperar e ver pelos teus próprios olhos. – Disse Christopher encostando-se à cadeira e olhando para mim.
- Isso não vale.
- Por acaso até vale. – Disse ele cruzando os braços. – Eu sou um vampiro e tu uma humana. Como estou protegido por um carro, posso dar-me ao luxo de utilizar as minhas super técnicas.
- Continuo a dizer que não vale. – Resmunguei cruzando as pernas no meu bando e colocando-me mais à vontade. – Quais são as outras técnicas?
- Tirando a super-visão e a velocidade? – Acenei com a cabeça. – O olfacto apurado e o facto de voarmos.
- Vocês voam? – Perguntei apática. – Voam de que maneira? Do género de super-heróis e companhia?
- Podes dizer que sim. – Respondeu ele dando uma gargalhada. – Só não tenho uma capa e collants. Creio que não dariam muito jeito quando voamos.
Ri-me com ele durante alguns segundos. Começava a imaginar Andy num collants azuis e com uma capa vermelha.
- Devia ser algo mesmo hilariante. – Comentei para mim ainda com a imagem na cabeça.
- Queres conduzir? – Perguntou ele esticando os braços como se se estivesse a espreguiçar. – Preciso de descansar um bocadinho.
- Pensei que os vampiros não se cansavam. – Disse enquanto descruzava as pernas e despedia o seu casaco.
- Experimenta ficar muito tempo na mesma posição. – Disse ele retirando o cinto de segurança. – Até os vampiros se cansam.
Fomos bastante rápidos a trocar de lugar apesar de estarmos praticamente parados no trânsito e não estarmos a incomodar ninguém. Assim que me sentei tive que colocar o meu banco quase todo para a frente. Não havia dúvidas de que Christopher era bastante alto. Ajeitei as minhas coisas, pondo-as como gostava mais e esperei, olhando para o carro da frente.
Uma criança de cabelos louros brincava com os seu bonecos no banco de trás. Olhou para mim durante uns segundos, sorrindo, e depois voltou-se para a frente como que envergonhada.
- Hum!? – Disse Christopher também olhando para a frente mas não para a criança ou para o carro, mas para o horizonte, onde tudo estava parado.
- O que foi? – Perguntei curiosa.
- Creio que daqui a nada recomeçaremos a andar. – Respondeu ele sorrindo e encostando-se ao meu banco, deitando-o.
- Confortável? – Perguntei sarcasticamente ao ver a sua posição confortável.
- Bastante. Acorda-me quando estivermos em Londres.
Sorri acenando com a cabeça, sabendo que ele me estava a observar. Conseguia sentir os seus olhos cravados em mim, avaliando-me, analisando-me, como fazia sempre. Um sentimento ao mesmo tempo agradável e arrepiante.
- Olha, tinhas razão. – Comentei quando os carros começaram a avançar lentamente pelo alcatrão.
- Eu sabia! – Disse ele e senti um sorriso.
- Ainda não te perguntei umas coisas. Espero que não te importes. – Disse começando a avançar com o meu carro azul. Íamos devagar.
- Claro que não. Pergunta o que quiseres. Creio que a pior parte já se passou.
- Bom, aquilo que sabemos em relação a vampiros, quanto é verdade e quanto é mentira.
- Como assim?
- Tu sabes, crucifixos, caixões, morcegos, essas coisas. – Disse sentindo-me completamente ridícula.
- Pois bem, a história dos crucifixos tem alguma verdade. Alguns vampiros são “alérgicos” – e ele levantou as mãos para fazer as aspas – outros nem por isso.
- Algum de vocês é? – Perguntei rapidamente.
- Nem por isso. Richard gosta muito de crucifixos. – Respondeu ele num tom de voz pensativo. – Os caixões só fazem parte do quotidiano dos vampiros das histórias. Os morcegos são pura fantasia.
- E as estacas?
- Paralisam-nos mas não nos matam. – Respondeu Christopher, desta vez num tom desconfiado, sabendo perfeitamente onde queria chegar.
- O alho?
- A mim faria mal pois nunca gostei do seu cheiro. – Respondeu fazendo uma careta. – Aos outros não fará nada.
- Ena, os guionistas estão mesmo errados a vosso respeito. – Comentei sorrindo.
- Parece que sim.
- Mas… - Tentei encontrar a melhor maneira de perguntar aquilo, de não querer criar mais imagens estranhas na minha mente. Sem sucesso, claro. - … Como é que vocês, tu sabes, morrem?
- A única forma de matar um vampiro é arrancando-lhe a cabeça. - Respondeu ele num tom carregado. De certo que não gostava de falar daquilo. – Após a decapitação, é enterrado o corpo e a cabeça em separado.
Arrepiei-me com a ideia de Christopher decapitado. Abanei a cabeça e as imagens foram esquecidas. É algo demasiado macabro para pensar enquanto se conduz.
- Isso é realmente violento. – Pronunciei, tentando manter uma voz curiosa e não assustada. – Pensei que bastava água benta.
- Isso também não faz nada. – Disse ele e a sua voz estava de volta à normalidade. Arrisquei lançar-lhe um olhar. Estava a olhar para o tecto do carro, sorrindo. – Mais alguma pergunta?
- E a luz do dia? Vocês não evaporam?
- Se ficarmos demasiado tempo ao sol, ficamos fracos. Uma outra maneira de nos matar. – Respondeu descontraidamente. – Conseguimos andar quase metade do dia ao sol, mas como Inglaterra tem um tempo sempre chuvoso, nunca é muito perigoso.
- Depreendo que Londres será uma maravilha. – Comentei rindo.
- Sim, Londres está sempre carregada de nuvens. Não há perigo de ser atingindo por um raio de sol.
Comecei a vislumbrar algo conhecido no horizonte. Prédio e confusão. Londres no seu melhor. Começava a sentir um certo entusiasmo por estar a chegar à minha cidade. E por estar a chegar a casa.
“Casa!” pensei suspirando fundo quando me lembrei dos meus pais.
- O que foi? – Perguntou Christopher sentando-se direito no banco e olhando-me preocupado.
- Casa! Ainda tenho de ir a casa. – Respondi voltando a suspirar.
- E vamos a tua casa. Fica lá uma noite se quiseres.
- E Boris? Não vai sentir o meu cheiro até casa? – Perguntei subitamente assustada quando me lembrei da razão pela qual estava a ir para Londres e pela qual ia para casa dos McKevin.
- Não te preocupes. Eu fico de vigia. Creio que ele ainda nem se quer deu pela tua partida de Kingston e como Andy ainda não me deu notícias, a tua avó está bem.
- Espero que tenhas razão. Estou a confiar em ti. – Disse olhando-o profundamente nos olhos. Ele estremeceu, algo completamente novo.
Cheguei à rua de minha casa e apercebi-me que os poucos vizinhos que conhecia me acenavam. Corei imenso enquanto Christopher se ria. Era estranho estar na minha cidade com ele e mostrando-lhe praticamente onde morava. Segui a estrada até à garagem onde deixava o carro e esperei que o portão subisse.
- Foi uma viagem boa. – Comentou ele fingindo espreguiçar-se. – Tenho de admitir que conduzes bem.
- Que piada! – Disse sarcasticamente e ele riu-se.
Entrei pela garagem, estacionando no meu lugar fazendo poucas manobras e colocando o travão de mão para cima.
- Queres subir? – Perguntei corando e agradecendo o facto das luzes da garagem se terem apagado de repente.
- Sou um cavalheiro por isso vou levar as tuas malas para cima. – Disse ele da escuridão numa voz alegre. Voltei a corar bruscamente e apressei-me a sair do carro.
Ele foi até à minha bagageira e pegou nas minhas poucas malas, esperando por mim. Avançamos pela garagem até uma porta que dava acesso as escadas e subimos, ouvindo os nossos passos ecoando e alguém num andar acima a discutir.
Era muito estranho estar de volta a casa após tudo o que tinha acontecido em Kingston. Parecia que tinha estado fora durante um ano inteiro, e estar em casa significava mudança. Quase não conhecia aquelas escadas de pedra que teimavam em subir e subir, cansando todos. As portas de madeira pareciam diferentes apesar de saber que eram as mesmas. Havia algo diferente no meu prédio, como se tivesse mudado mais do que estava à espera. Contudo, tinha sido eu a mudar, a minha percepção das coisas tinha mudado num mês.
Alcançamos a minha porta e abri a mala. Mais uma vez, as chaves estavam no fundo da mala e toquei à campainha, esperando que a minha mãe, ou o meu pai estivessem em casa. Ouvi passos do outro lado e sorri quando o meu pai me abriu a porta, surpreso por me ver.
- Phoebs!? Chegaste cedo. – Disse ele abraçando-me fortemente. Ele estava a trabalhar pois tinha os óculos colocados e a gravata completamente desfeita. Ele olhou para Christopher e cumprimentou-o, deixando-nos entrar. – Deixa aí as malas.
Christopher colocou as malas no chão e seguindo-nos pelo corredor até à sala. Era como tinha pensado, o meu pai estava atrapalhado de trabalho. Papeis, livros e muitas pastas estavam espalhadas pela mesa de centro de vidro e o seu portátil estava em cima do sofá.
- A mãe? – Perguntei olhando pela casa, não a reconhecendo.
- Onde achas que ela está? – Perguntou o meu pai sentando-se no sofá e colocando o portátil em cima das suas pernas enquanto as estendia e as repousava na mesa de centro.
- Na galeria. – Respondi com um tom de óbvio. Ele acenou com a cabeça.
- Desculpem lá a desarrumação mas estou um pouco atrapalhado.
- Podemos ver. – Disse eu. – Bom, vou colocar as malas no quarto.
Passei por Christopher que estava encostado à ombreira da porta e fiz-lhe sinal para que me acompanhasse. Ele seguiu-me e praticamente correu para apanhar as minhas malas antes de mim. Olhei-o furiosa mas desviei-me para o meu quarto. Desta vez quase não cabia em mim de felicidade.
Entrar no meu quarto de Londres com Christopher era algo que tinha pensado várias vezes enquanto estava em Kingston. Ali ele podia ver quem eu realmente era. E parecia que ele sabia isso pois observava o quarto atentamente, com um sorriso estranho nos lábios.
- Como podes ver, o meu quarto é um bocado exagerado. – Disse timidamente enquanto ele colocava as malas em cima da minha cama alta.
- É muito tu. – Disse ele vendo os postais que tinha na parede. – Já estiveste em Paris?
- Nem por isso. – Respondi tristemente. – Esse postal foi a Laura que me enviou quando lá esteve com a sua família. Adorava lá ir.
Ele acenou com a cabeça e sorriu-me.
- E agora? Vais-te embora ou…?
- Tenho que ir. Mas… - Ele aproximou-se de mim lentamente, fazendo-me tremer dos pés à cabeça. – Antes de ir queria apenas…
- O quê? – Perguntei quando ele se aproximou ainda mais de mim, estando frente a frente, a poucos centímetros de mim. O meu coração alertou-me com um súbito disparo que podia jurar ouvir-se na sala.
- Despedir-me de ti.
Os seus braços abraçaram-me fortemente, apanhando-me completamente desprevenida e quase desmaiei com a aceleração imparável do meu coração. Era tão agradável estar assim, nos seus braços fortes, sabendo que estava completamente apaixonada por ele. Deixava-me de tal maneira vulnerável que se ele me pedisse para me atirar da janela, eu atirar-me-ia por ele.
As suas mãos estavam a agarrar-me os braços e os seus olhos brilhantes olhavam-me intensamente. Vi-me espelhada neles e quase lhe consegui ver a “alma”. Ele devia estar a pensar o mesmo em relação a mim.
- Vejo-te amanhã ou agora vais fazer ronda? – Consegui perguntar com a voz rouca.
- Estás na cidade por isso, creio estares a salvo. Por enquanto. – Disse ele sorrindo-me. – Pode ser que me vejas amanhã.
- Isso era bom. – Comentei derretendo-me por completo quando ele sorriu ainda mais.
- Pois era.
Não sei como conseguir fazer aquilo mas quando me apercebi do que estava a fazer, senti os meus lábios nos seus, e ele foi apanhado de surpresa ao me ter atirado ao seu pescoço. Porém, ele não me afastou nem tentou lutar contra mim. Apenas me abraçava fortemente e beijava-me de volta, quase necessitado como eu. Tentava respirar calmamente enquanto me deixava hipnotizar pelo beijo mas quando suspirei, ele afastou-se um bocado de mim, o suficiente para colocar a sua testa encostada à minha e olhar-me profundamente.
- Desculpa… Eu não sei o que me deu. – Desculpei-me sentindo-me completamente idiota e envergonhada com o meu ataque mas no fundo, agradecida por o ter feito. Ele sorria docemente o que quase me fez quase beija-lo de novo.
- Para a próxima avisa-me antes de me atacares, está bem? – Brincou ele fazendo-me corar imenso.
Todavia, ele acariciou a minha face e colocou levemente os seus lábios nos meus, beijando-me rapidamente e afastando-se de mim, deixando-me completamente perdida. Saiu do meu quarto e ouviu-o despedir-se do meu pai e a porta bater.
Durante aqueles poucos segundos mal consegui respirar e mentalizar-me do que tinha acontecido, apenas tinha a leve sensação que tinha sido ele a beijar-me.
Tinha sido ele a beijar-me.
O meu coração ia rebentar de vez. Estava tão acelerado que pensei que ia explodir de um momento para o outro. Era impossível saber o que era ter um coração calmo e sem pressa. Ainda senti os seus lábios gelados nos meus e o seu sorriso estava, literalmente, cravo na minha mente. Nem sei quanto tempo permaneci quieta no mesmo lugar a repetir vezes sem conta o que tinha acontecido.
Acordei para a realidade num humor tão contagiante que decidi telefonar a Laura para a avisar que estava em Londres. As minhas mãos tremiam muito e a procura pelo meu telemóvel era uma aventura. Sorria da minha atrapalhação, envergonhada por me sentir uma criança. Mas lá o encontrei no fundo da mala e procurei o número de Laura.
- Estou?
- Laura, sou eu. A Phoebe.
- Phoebs!? Onde andas rapariga? – Perguntou ela num tom de voz autoritário.
- Estou em Londres. Acabei de chegar.
- A sério?
- Sim. Queria saber se estás livre esta tarde para nos encontrarmos.
- Claro que estou. – Respondeu ela imediatamente. – Onde queres-te encontrar?
- No sítio de sempre. Vou sair de casa agora, por isso…
- Dentro de mais ou menos 15 minutos estou lá. – Cortou ela alegremente. – Até já.
Nem tive tempo de lhe responder e já ouvia o bipe do outro lado. Sorri com o entusiasmo da minha amiga e atirei o telemóvel para dentro da mala, colocando-a ao ombro e saindo do meu quarto. Andei pelo corredor aos ziguezagues, suspirando quando entrei na sala. O meu pai observou-me por cima dos óculos com um ar desconfiado.
- Vais sair? – Perguntou ele quando lhe dei um beijo na cara.
- Vou ter com a Laura. – Respondi sorrindo-lhe.
- Estás muito bem-disposta. Aconteceu alguma coisa? – Perguntou o meu pai curioso.
- Apenas estou adorar o meu dia. – Respondi-lhe saindo da sala. Mas ele chamou-me e eu espreitei pela porta, vendo-o muito sério porém muito animado.
- Isso tem alguma coisa a ver com a viagem que fizeste com o Christopher? – Perguntou ele naquele seu tom de advogado que ele tinha com os clientes mas eu notei que era uma pergunta mais rasteira.
- Não sei. – Respondi encolhendo os ombros e encaminhando-me para a porta de saída.
- Phoebe. – Chamou o meu pai da sala e eu parei com a mão na maçaneta. – Não te esqueças de ir ver a tua mãe à galeria.
- Está bem. Até logo pai. – Gritei da porta saindo finalmente.
Andar na minha rua era novamente estranho. Mas com a minha mente distante quase perdia o autocarro se não fosse o simpático motorista a chamar-me. Tentei concentrar-me nas imensas ruas imersas em cores e formas. Consegui perceber que a cidade estava constantemente a mudar. Havia uma rua que estava cortada para obras, outra que tinha aberto e uma ou outra loja nova. Perguntava-me se já existiriam e só tinha notado agora ou se eram mesmo novas. Mas a cidade mantinha-se igual à Londres de à poucos tempos atrás. Sempre a mesma intemporal Londres que era tão bonita que fazia doer à alma. O tempo era sempre monótono mas uma pessoa rapidamente se habituava a ele. As ruas sempre atulhadas de gente a irem uma contra a outra era algo que, quando não se tinha, dava-se pela falta. Os polícias armados mantinham a segurança nas ruas e os mendigos quase me davam vontade de chorar. Um homem ou outro surgia de vez em quando, muito parecido a Christopher e o meu coração parava por segundos, até notar que não era ele. Começava a questionar-me se aquelas pessoas saberiam da existência dos vampiros e dos lobisomens. Possivelmente, vários deles eram vampiros e lobisomens. Temi só de me lembrar dos olhos sangrentos deles.
Sai na minha paragem e apressei-me até ao café onde costumava me encontrar com Laura e Mark quando estávamos nas aulas. Estava cheio de gente e foi quase uma aventura arranjar lugar para mim. Havia vários casalinhos novos, mães com os seus filhos, colegas a estudarem muito concentrados, outros simplesmente a ouvirem música enquanto comiam. Lamentei não ter trazido o meu leitor de música para ouvir enquanto esperava por Laura. Mas ao mesmo tempo não necessitava dele. Voltei atrás no tempo e recordei os últimos minutos com Christopher. Devo ter suspirado como uma apaixonada (que é o que sou) pois uma rapariga olhou para mim confusa e riu-se de seguida. Tinha a noção de irradiar felicidade e cada pessoa que passava por mim sorria-me. A empregada que me serviu o café estava cabisbaixa mas assim que eu lhe agradeci e lhe sorri pareceu outra, sorridente e bem-disposta. O amor era algo contagioso.
- Phoebs! – Gritou Laura da porta do café, acenando enquanto se apressava ao meu encontro. Mark vinha atrás dela, sorridente e notei que estava mais musculado. Como era possível ele ter mudado tanto num mês?
- Laura, Mark! – Levantei-me para os abraçar fortemente. Mark quase me estrangulou e levantou-me do chão. Era óptimo vê-los tão felizes. – Oh Laura, desculpa-me tanto ter sido uma completa idiota contigo neste mês.
- Phoebe… - Cortou ela sorridente enquanto tirava o casaco e se sentava com Mark a seu lado. – Já te disse que não faz mal. Eu entendo.
- Mesmo assim sinto-me mal.
- Não sintas. Também tive ai um tempo ocupada. Olha! – Laura esticou-me a mão esquerda e notei algo brilhar fortemente no seu dedo anelar. Olhei de boca aberta para ela e para Mark e ambos estavam corados e tímidos.
- Estás a gozar? Pediste-a em casamento? – Perguntei a Mark e ele acenou a cabeça. – Isso é maravilhoso! Parabéns.
- Obrigado. – Disse Laura olhando para o seu anel de ouro com uma enorme pedra. – Nem queria acreditar. Ele pediu-me em casamento quando voltámos de Kingston.
- Porquê que não me disseste isso antes? – Perguntei indignada.
- Tinhas outras coisas em que pensar e eu queria ver a tua reacção. – Respondeu ela dando a mão ao seu novo noivo.
- Nem acredito que te vais casar. – Comentei colocando uma mão na cabeça. – Sempre soube que ias ser a primeira.
- Nem eu acredito! – Ela olhou apaixonadamente para Mark e deu-lhe um beijo na cara.
- Então conta coisas, miúda. – Disse Mark sorrindo-me abertamente. – Como está a tua família?
- Estão melhor. O meu pai já está a trabalhar num caso novo. A minha mãe contínua ocupada com a galeria. E a minha avó ficou em Kingston. Ela agora anda ajudar a Mrs. Amelie no mercado. – Respondi suspirando à medida que me lembrava do tempo a passar.
- É normal! – Disse ele seriamente. Lembrei-me que ele também tinha perdido o seu avô quando era uma criança e que sabia perfeitamente bem como era essa dor. – Mas agora está tudo bem, não é?
A conversa girou em torno da minha família a maior parte do tempo. Estava agradecida por estar na fase do falar do meu avô com saudade. Laura e Mark estavam sempre atentos para o caso de não aguentar a conversa séria que estávamos a ter.
Após ter ignorado os meus amigos, devia-lhes tudo. Contei-lhes tudo o que sentira e o que ainda sentia, omitindo algumas partes menos importantes. Era incrível ver que eles continuavam a preocupar-se a sério comigo. Laura tinha passado metade da conversa sobre a morte do meu avô de mãos dadas comigo, olhando-me tristemente mas sempre sorridente. Mark tentava aliviar as coisas com uma piada ou outra que, para minha surpresa, tiveram efeito.
- E os McKevin? – Perguntou Laura e vi-a olhar-me desconfiada. – Disseste-me que me contavas tudo depois.
- Disse? – Perguntei tentando não me lembrar da última vez que falara com Laura ao telefone. Ela tinha um certo olho para descobrir quem estava apaixonado por quem. De certeza que já sabia que havia qualquer coisa entre mim e Christopher. Mas, será que se pode chamar a um beijo qualquer coisa?
- Sim, disseste. Conta-me tudo. – Pediu ela entusiasmada, endireitando-se na cadeira e olhando-me de tal maneira que me senti exposta. – Vá, desembucha.
- Ok. – Rendi-me suspirando e baixando a cabeça para que eles não me vissem a corar brutalmente assim que falava neles. – Eles são muito simpáticos e ajudaram-me imenso.
- Phoebe… - Chamou Laura baixinho e olhei para ela. – Passa à frente no genérico. Diz-me, gostas do tal Christian, Christopher, ou como é que ele se chama?
- Ele chama-se Christopher, Laura. – Respondi corando. – E sim, creio que gosto dele.
- Estás a ver? – Perguntou Laura a Mark num tom de teimosia e esticou-lhe a mão. Olhei-os confusa.
- Pronto, está bem, ganhaste. – Disse Mark retirando uma nota do bolso das calças e entregando-a a Laura. Fiquei ainda mais confusa.
- O que é que se passa?
- Eu e Laura fizemos uma aposta. Quando lhe falaste dos novos vizinhos ela disse-me que descreveste bastante um deles e que ia haver qualquer coisa no ar. – Respondeu Mark encolhendo os ombros. – Fizemos uma aposta para ver se te apaixonavas ou não por ele. Eu apostei que não.
Olhei para eles os dois, espantada. Aquilo devia ter-me chateado mas estava bastante animada para achar aquele acto errado. Pelo contrário, era óptimo ver que Laura conhecia-me bem. Normalmente, ela só fazia apostas quando acreditava seriamente que algo ia acontecer. Este pensamento fez-me corar de novo.
- Então, mas continua. Vocês já…?
- Laura, por favor. – Cortei imediatamente envergonhada. – Importaste de não falares disso?
- Pronto, desculpa. Mas diz-me uma coisa, já houve beijo? – Perguntou ela baixinho, inclinando-se para mim e bastante curiosa. Corei ainda mais, estando completamente vermelha e desviei o olhar dela, sorrindo para mim quando me lembrei dos seus lábios nos meus. Esta reacção respondeu-lhe e ela endireitou-se. – Oh, já houve beijo. Como foi?
- Tu és inacreditável, sabes? – Disse sorrindo-lhe timidamente. Ela riu-se numa gargalhada baixa e vi que Mark se tentava conter.
- Já me conheces. – Laura encolheu os ombros e pegou no seu batido e bebeu.
- Ele é completamente diferente daquilo que estamos à espera. – Comentei brincando com a colher do meu café. – Pensamos que ele é uma coisa mas depois, ele prova-te o contrário. Há mais nele do que julgas.
- Ok, a minha melhor amiga está mesmo apaixonada. – Comentou Laura suspirando e olhando à volta como se não acreditasse que era eu que ali estava.
- Laura, a Phoebs também é humana. Julgas que somos só nós que nos apaixonamos? – Perguntou-lhe Mark e agradeci-lhe silenciosamente com o olhar por ele me ter defendido. – Também tem direito.
- Apenas digo que é estranho ver-te assim corada, tímida e com os olhos a brilharem de tal forma que eras capaz de causar um acidente. – Disse Laura e eu ri-me numa gargalha tão alta que metade do café olhou para mim. – Não me lembro de te ver assim nos 15 anos de amizade que temos.
- Porque nunca me senti assim. – Comentei olhando pela janela grande do café e distanciando a minha mente da confusão à minha mesa. – Cada vez que o vejo é como se o meu coração explodisse de felicidade. Cada vez que ele olha para mim sinto-me a flutuar. – Olhei para Laura seriamente. – É assim que te sentes quando estás com o Mark?
Laura olhou para o seu noivo e sorriu-lhe docemente. Talvez o mesmo tipo de sorriso que entrego a Christopher sem me aperceber. Eles os dois eram a prova viva que o amor verdadeiro ainda existe.
- Sim. É assim que me sinto.
Mark deu um beijo na testa de Laura e sorri ao ver a cena romântica. Poderia ter um momento assim com Christopher. Poderia ter até mais com ele. Sabia perfeitamente bem que ele não era pessoa de se deixar ficar por um beijo na testa e um abraço. Ele levava sempre tudo ao limite. Assim como me levar a miradouros, a caminhos longos até minha casa, a esconder-me nas sombras somente para me implorar para voltar para Londres. Quem dera o primeiro beijo tinha sido eu, atacando-o logo. Mas ele tinha-me beijado uma segunda vez, surpreendendo-me com a sua atitude. Ele pedira-me para a próxima avisá-lo. Isso queria dizer que ia haver uma segunda vez, pelo menos da minha parte. Comecei a desejar que o próximo dia chegasse o mais depressa possível.
Ficámos no café até a noite começar a cair. Tínhamos perdido a noção do tempo com as nossas conversas. Era tão bom voltar a estar com os meus amigos. Parecia que tudo o que tinha acontecido no passado recente não tinha passado de puros pesadelos por esquecer. Claro que não lhes tinha contado a história dos lobisomens que andavam atrás de mim nem do vampiro por quem me apaixonara ou da sua família vampírica com a qual ia morar. Para eles, Christopher era um rapaz típico que adorava ser antiquado.
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Próximo Capítulo:
Em Família